Convidados


MORRO DOS PRAZERES

De: MARIA AUGUSTA RAMOS
30.11.2013
Por Marcia Vitari
A diretora faz valer o que sabe melhor: destacar personagens

Cidade fotogênica, o Rio de Janeiro oferece panoramas incríveis. Do alto do Morro dos Prazeres – sobrenome do antigo proprietário que morava encarapitado em Santa Teresa, onde hoje funciona um espaço cultural – temos uma vista deslumbrante, um prazer poder olhar de norte a sul a cidade, tanto o panorama Pão de Açúcar/Corcovado, como a vastidão que se estende do Maracanã/Central do Brasil até o feixe de luz do aeroporto na Ilha do Governador. A cadeia de montanhas com o Dedo de Deus em riste aponta aquele espaço elevado da cidade, em que a MTV aluga o “bosque” (um campo de futebol palco de eventos), o filme Tropa de Elite já  filmou seus fuzis em becos e reentrâncias, e a primeira Festa Literária em comunidades onde as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPS) se instalaram já levou seus microfones. E é neste mesmo cenário que a diretora Maria Augusta Ramos decide fazer uma crônica documental sobre  como se dá a convivência entre moradores e policiais, um ano após a chegada dos representantes da lei.

Em sua abordagem, ela tenta harmonizar os depoimentos tanto dos que vivem à margem da sociedade, quanto dos que tentam impor a ordem num espaço desde sempre abandonado à própria sorte e refém dos que impõem suas normas e opção de lucro líquido (os traficantes). Com cenas que procuram transmitir espontaneidade, a diretora faz valer o que sabe melhor: destacar personagens, numa dança onde seus pares surgem com naturalidade e geram identificação. A câmera parada coloca o espectador em perspectiva,  na intenção de analisarmos  o que vemos. O oposto que se faz quando, em movimento, a câmera nos insere na ação, não deixando espaço reflexivo. O depoimento de uma moradora achacada pela polícia que cobra propina para não ser fichada é forte e pungente. A esperança e o desânimo daqueles que imaginam levará ainda uma década para que mudanças efetivas aconteçam estão lá, do mesmo modo que daqueles que veem, mesmo numa adaptação morosa, um deslocamento possível. Um jogo de esgrima onde tanto os policiais como os moradores sentem-se acuados no próprio espaço de luta: observam e são observados. Na tentativa de defender vidas e liberdade, a fala de uma policial feminina que diz ter que secar sua farda num varal improvisado na cozinha, pois não pode ser identificada com a corporação, é apresentada como um fardo. Ao invés de orgulho, medo e vergonha. Em 2006, 23 policiais militares foram mortos em combate. Em 2011, esse número cai para três. A necessidade e urgência de melhores condições na qualidade de vida está em todos os cantos, neste circo que não se pretende de horrores.

O grande mérito desse filme - a conclusão de uma trilogia que começou com Justiça (2004) e Juízo (2007) - é o de equilibrar depoimentos de ambas as partes. Moradores e policiais são vistos numa ótica humanizada, emoldurados por cenários dignos de cartão postal, em contraste com toda aspereza que é viver e trabalhar em condições insalubres. Um cabo de guerra esgarçado dos dois lados. Uma  certa revolta com a ausência de um estado que não supre as necessidades básicas, visando a formação de um ser civilizado; e a força policial que, por seu histórico de truculência e mau uso do poder, não impõe respeito e ínfima ordem. Uma imagem desgastada e exaurida. A pergunta que fazemos ao longo do filme e no seu término é:  Afinal, quanto tempo ainda iremos levar para melhorar a vida dos menos afortunados, que antes favelados, agora membros de uma comunidade com muito pouca noção de conjunto entre o morro e o asfalto? Os prêmios recebidos no Festival de Brasília de melhor direção, fotografia e som são o reconhecimento de um trabalho bem feito e a promessa de uma proposta exequível.

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Outros comentários
    1023
  • Cláudia Mesquita
    01.12.2013 às 07:20

    Adorei o texto e o filme quero conferir.