Críticas


LA JAULA DE ORO

De: DIEGO QUEMADA-DÍEZ
Com: BRANDON LÓPEZ, RODOLFO DOMÍNGUEZ, KAREN MARTÍNEZ
22.12.2013
Por Marcelo Janot
Ao invés de discursos sociológicos, a simples exposição dos fatos tem a força de mil palavras

Um road movie como “La jaula de oro” corria o risco de, ao assumir o ponto de vista de adolescentes pobres da Guatemala que sonham com uma vida nova nos Estados Unidos, ser conduzido pelo viés da fantasia. Mas o espanhol Diego Quemada-Díez, estreando na direção de longas após trabalhar como operador de câmera em filmes como “21 Gramas” e “O jardineiro fiel”, não ameniza em nada a via crúcis dos três meninos (entre eles uma menina disfarçada) que, sozinhos, tentam cruzar a fronteira.

As crianças são seríssimas e há pouco espaço para brincadeiras nessa aventura inconsequente que é reflexo do desespero pela falta de oportunidades nos países de terceiro mundo. Em uma hora e meia, o diretor expõe de forma inteligente uma série de contradições envolvendo as desigualdades do mundo capitalista, sem soar panfletário. Ao invés de discursos sociológicos, a simples exposição dos fatos tem a força de mil palavras. Saltam aos olhos detalhes como um dos meninos ser um índio que não fala uma palavra sequer de espanhol (ou de inglês), e que nos remete ao massacre histórico que se perpetua há séculos.

Se os índios continuam sendo tratados como bichos prontos para o abate, os miseráveis homens brancos não ficam atrás. A exploração do pobre pelo pobre nessas situações-limite na fronteira, sem nenhum resquício de humanismo, revela o fundo do poço a que se chegou na perseguição ao sonho americano. “La Jaula de Oro” incomoda e impressiona sobretudo graças ao magnífico elenco mirim, todo formado por não-atores, e que mereceu um prêmio especial na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.



publicado originalmente no jornal O Globo de 20.12.2013

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