Críticas

a grande beleza

A GRANDE BELEZA

De: PAOLO SORRENTINO
Com: TONI SERVILLO, CARLO VERDONE, SERENA GRANDI
24.12.2013
Por Marcelo Janot
Funciona muito bem como crônica da solidão e como observação ácida e crítica da Roma contemporânea.

Talvez a melhor maneira de apreciarmos o que de melhor “A Grande Beleza” tem a oferecer seja tentando esquecer, por um instante, as referencias ao cinema de Federico Fellini. Se enxergarmos o filme de Paolo Sorrentino apenas como um simulacro, ele obviamente sairá perdendo na comparação com “Oito e Meio”, “A Doce Vida” e quaisquer outras obras-primas fellinianas. Em primeiro lugar, porque apesar de toda a competência artesanal do diretor, não há em Sorrentino um pingo da genialidade de Fellini.

Se o diretor teve a pretensão de tentar chegar aos pés de Fellini recorrendo ao onírico e ao mundano colocando em cena uma girafa de circo, flamingos ou a ex-musa Serena Grandi como uma espécie de Saraghina cheiradora, são momentos que não conseguem atingir uma beleza que ultrapasse o artificialismo da mera plasticidade. Mas não parece ter sido esse seu objetivo.

Portanto, que se parta da homenagem ao mestre para chegamos ao essencial do filme em questão. “A Grande Beleza” funciona muito bem em dois níveis: como uma crônica da solidão de um homem que não consegue encontrar seu lugar no mundo que o cerca, tema recorrente na obra de Sorrentino, e a observação ácida e crítica desse mundo, que é a Roma contemporânea.

Ora, não é porque Fellini retratou com perfeição a crise criativa e existencial de seu alter-ego Guido em “Oito e Meio” e o mundo vazio do high society romano em “A Doce Vida” que Sorrentino não tem o direito de, à sua maneira, atualizar esses temas. E o melhor é que ele de fato faz isso à sua maneira, com uma estética presente em seus filmes anteriores, ao invés de ser mera cópia de Fellini.

A Roma felliniana de 1960 definitivamente não é a mesma em 2013. A stripper sorrentiniana quer fazer um strip-tease “sofisticado”, mas seu pai, que cresceu entre intelectuais como Jep (o magnífico Toni Servillo) e hoje é dono de nightclub, reclama que “o mundo não é mais sofisticado”. Símbolo dessa sofisticação intelectual e artística, Fanny Ardant, musa de Truffaut, faz uma aparição breve cruzando na rua com Jep como se fora um fantasma desse passado de grande beleza.

E assim, da escritora que agora vive de fazer roteiros de reality shows ao vizinho milionário que vai em cana, passando pelo cardeal cotado para ser o futuro Papa mas que só se interessa por culinária, Sorrentino vai nos oferecendo um painel de uma Roma vulgar, onde o papel da arte é severamente ridicularizado em cenas que envolvem duas performances, uma delas praticada por uma menina-prodígio explorada pelos pais.

A grande beleza, um título de duplo sentido carregado de ironia, vem desse artificialismo estético do mundo de Sorrentino, com longos planos em movimentos milimetricamente estudados, enfatizado pela iluminação e pela trilha sonora belíssima e onipresente que intercala os suaves temas melódicos e intimistas da trilha original de Lele Marchitelli com a ênfase nos cantos líricos de passagens da “Sinfonia das Lamentações” de Gorecky e do “Dies Irae” de Zbigniew Preisner. Um painel superficial, belo e vazio, como aliás é o mundo de hoje, intercalado pelos fracos momentos em que Jep relembra um amor de juventude. Se Paolo Sorrentino não é o engodo que os fellinianos querem nos fazer acreditar, tampouco pode ser tratado como novo gênio do cinema italiano. Mas ele vem construindo uma obra coerente, interessante e merece muita atenção.



Leia a crítica de Nelson Hoineff:

http://criticos.com.br/?p=4488&cat=1

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Outros comentários
    1202
  • julio coelho
    29.01.2014 às 14:52

    Tecnicamente o filme é bom, sim; mas quem ainda não tem bagagem e algumas décadas de estrada vai achar tedioso...
  • 1208
  • Nino
    02.02.2014 às 22:34

    O filme em minha opinião só tem uma grande virtude; A de retratar belíssima e intimamente a paisagem de Roma. As caricaturas felinianas não ajudam em nada a temática do filme, que diga-se de passagem, trivial, de mal gosto e artificial. Certamente devo me considerar um imbecil por contrariar a crítica entendida, mas o filme é um retalho de cenas banais, cenas caricaturais.