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UM CORPO QUE CAI

De: Alfred Hitchcock
Com: James Stewart, Kim Novak
24.01.2014
Por Octavio Caruso
Um dos símbolos visuais mais fortes do filme é a espiral

Alfred Hitchcock prestava tremenda atenção nos detalhes e incitava seu público a acompanhá-lo nessa postura ativa, não apenas observando, mas fazendo parte da investigação. Basta nos lembrarmos da cena do infantilizado quarto de Norman Bates em “Psicose”, onde por alguns segundos, a câmera foca no vinil que repousava na vitrola: “Eroica, Sinfonia No. 3, E-flat major, Op.55 de Beethoven”. Na marcha fúnebre composta no século 19, à memória de Napoleão, está contido o trecho que serviu de inspiração para Bernard Herrmann emoldurar as facadas na cena do chuveiro. São detalhes que podem passar despercebidos, mas o mestre do suspense preferia nunca subestimar o indivíduo sentado na sala escura.

Em “Um Corpo que Cai”, um dos símbolos visuais mais fortes (além do verde como símbolo da morte) é a espiral, representando o vazio (o protagonista vive de frágeis ilusões mentirosas) e a impossibilidade do total controle emocional pelo ser humano. Na abertura clássica de Saul Bass ela aparece nos olhos de uma mulher. Quando o personagem de James Stewart olha para seu parceiro morto no asfalto, os membros de seu corpo formam uma espiral. Mais adiante na trama, a Carlotta pintada no quadro mantém seu cabelo preso em forma de meticuloso espiral, assim como Madeleine (a câmera foca nesse detalhe) que a observa. Judy ostenta um corte de cabelo com pequenas espirais caídas sem precisão sobre sua testa, como se simbolizasse um caos que Scottie (Stewart) precisará controlar. A morte do colega e a presença da enigmática mulher são fatores que auxiliam no gradual descontrole emocional do protagonista. A espiral retorna no brilhante desfecho, representada pela escada da igreja.

Analisando literalmente o roteiro, podemos (e boa parte da crítica da época assim o fez) vê-lo apenas como uma engenhosa história de detetive, mas pela ótica da psicologia a trama traça os meandros do labirinto da mente de um homem perturbado por um devastador sentimento de culpa, que o faz tentar desesperadamente transformar Judy (Kim Novak) em um objeto de fetiche, enquanto procura curar o deslocamento do seu ego. Ao resgatar Madeleine do afogamento certo, Scottie se torna Orfeu, disposto a tudo para trazer sua Eurídice de volta do Hades. Como Pigmalião, será sua insistência em recriá-la (recriar a perfeição que idealiza) no corpo de outra mulher a causa de sua tragédia, não sua recorrente acrofobia, um ótimo “MacGuffin”.

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Outros comentários
    1196
  • Adair Lima
    24.01.2014 às 08:43

    Um dos melhores textos que li sobre essa obra prima. Gostei da visão da vertigem como o McGuffin. Hitchcock genial!