Críticas


FRUITVALE STATION

De: RYAN COOGLER
Com: MICHAEL B. JORDAN, OCTAVIA SPENCER, MELONIE DIAZ
02.02.2014
Por Marcelo Janot
O lado humano de um trágico "rolezinho"

O roteirista e professor americano Robert McKee costuma dizer que filmes não mudam o mundo, mas iluminam coisas que às vezes o mundo não vê. É daí que vem a importância de um filme como “Fruitvale Station – A Última Parada”. O que aconteceu na estação do metrô de superfície de Oakland, na Califórnia, após o réveillon de 2009, poderia ser confundido com mais um caso de violência urbana fadado a cair no esquecimento. Mas quando isso se transforma em bom cinema a arte cumpre sua função social.

O filme começa com imagens reais do momento fatídico captadas com celular, e o que se vê a seguir é a reconstituição ficcional da vida do protagonista Oscar (Michael B. Jordan) nas quase 24 horas que antecederam a confusão. Oscar é mostrado como um ser humano, não como um santo ou um mártir. Ele é carinhoso com a família mas agressivo com o chefe que o demitiu por justa causa; quer voltar a ter um emprego honesto mas não escapa do passado de vendedor de drogas que o levou à cadeia. Naquela noite de ano novo, ele só quer dar um “rolezinho” com a namorada e os amigos para ver os fogos em São Francisco. Mas a gente sabe como “rolezinhos” de negros pobres são tratados pela polícia, seja onde for.

O diretor e roteirista estreante Ryan Coogler constrói uma narrativa envolvente, com uma forte pegada documental, sobretudo a partir do momento em que Oscar e seus amigos entram no metrô. Há pequenos deslizes melodramáticos no roteiro que antecipam a possibilidade do desfecho trágico, como o beijo de despedida acompanhado do mau pressentimento da filha. Mas os ótimos desempenhos do elenco, sobretudo de Jordan e de Octavia Spencer (vencedora do Oscar por “Histórias Cruzadas”) ajudam a fazer de “Fruitvale Station” um filme comovente e necessário. Mudar o mundo? Aí talvez seja querer demais.



(Publicado originalmente no jornal O Globo de 31.01.2014)

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