Críticas


NEBRASKA

De: ALEXANDER PAYNE
Com: BRUCE DERN, WILL FORTE E JUNE SQUIBB
14.02.2014
Por Octavio Caruso
A viagem interna de um homem, tentando suturar feridas em seu passado

Em alguns momentos na beleza da fotografia em preto e branco (mérito de Phedon Papamichael), senti uma forte inspiração em “No decurso do tempo” (Im lauf der zeit – 1976). Os dois companheiros viajantes de Wim Wenders cruzavam o país como forma de expor uma realidade social decrépita, enquanto Alexander Payne utiliza o “road movie” como ferramenta estilística para evidenciar a viagem interna de um pai, tentando suturar as feridas abertas em seu passado, acompanhado de seu filho caçula e uma simples propaganda promocional enviada pelo correio.

A beleza maior nesse filme minimalista está na insinuação de que o velho cansado, disposto a caminhar uma absurdamente longa distância para requisitar seu prêmio, talvez seja o único com plena consciência de que não há tesouro algum no final da jornada. Ele também sabe que seu filho mais velho intenciona colocá-lo em um asilo. Todos os abutres que encontra ao revisitar seu passado, incluindo membros de sua própria família, aglomeram sobre o frágil homem com sorrisos falsos, desejando apenas uma fatia generosa desse bolo. Todos chegam a crer na possibilidade milionária em algum ponto dessa longa estrada até Nebraska, e o silencioso protagonista interpretado por Bruce Dern (Woody) está disposto a não quebrar a ilusão, pois após décadas de desgastante rotina, ele está sendo notado, até mesmo aplaudido.

A cena em que ele busca sua dentadura nos trilhos do trem, com o filho, serve como demonstração de sua lucidez ácida. Em seu rosto aparentemente frio na cena do videokê, podemos notar o choque por constatar a falsidade daquelas pessoas, ainda que o roteiro (ótimo trabalho de Bob Nelson) nos estimule a ver sua reação impulsiva conectada à emoção de estar sendo reconhecido. As canções selecionadas, nunca por acaso, potencializam a crítica comportamental: “Time after time”, “In the ghetto” (a letra com mais consciência social, ironicamente entregue àquele que menos a personifica na trama) e “Green, green grass of home” (a realidade que o homem encontra é a perfeita antítese da letra que incita a nostalgia do antigo lar).

Uma grata surpresa é o senso de humor eficiente que permeia o filme, personagens hilários como a mãe desbocada, aniquilando em poucos minutos a forte impressão de que seria uma experiência profundamente sorumbática.

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Outros comentários
    1246
  • Elena Barros
    03.03.2014 às 16:46

    Crítica precisa e objetiva, salientando pontos interessantes da trama, que levam o leitor a realmente desejar assistir ao filme. Parabéns, Octavio. Como sempre, brilhante.