Críticas


PHILOMENA

De: STEPHEN FREARS
Com: JUDI DENCH, STEVE COOGAN, SOPHIE KENNEDY CLARK
14.02.2014
Por João de Oliveira
A direção convencional de Stephen Frears não diminui o interesse pela comovente história real.

O novo filme de Stephen Frears (que retoma um tema já abordado de forma mais crítica pelo filme "Em nome de Deus", de Peter Mullan, 2002) narra a história do encontro entre uma enfermeira irlandesa aposentada, a Philomena do título, e um jornalista inglês desempregado, Martin Sixsmith, ambos vítimas de injustiças e de rigorismos. A primeira tornou-se presa do fundamentalismo católico na Irlanda dos anos 1950, enquanto o segundo foi demitido injustamente por um erro de interpretação.

Ainda adolescente, Philomena engravidara, o que fez com que seu pai decidisse enviá-la ao convento "Sagrado Coração", na cidade de Limerick, na Irlanda. Para pagar os custos de sua estadia e de seu filho, ela era obrigada a trabalhar, junto com outras jovens na mesma situação, na lavanderia do convento - com direito a apenas uma hora de visita diária aos filhos tidos antes do casamento, fato considerado pelas irmãs como um grave pecado que deveria ser punido severamente. O trabalho quase escravo e o curto período de contato com os filhos é, ao mesmo tempo, forma de punição e de expiação do pecado cometido. Como muitas crianças na época, o filho de Philomena e a filha de sua melhor amiga - que tiveram a sorte de ter sobrevivido quando muitas mães e filhos morriam durante o parto - foram vendidos aos três anos de idade para uma rica família americana, à revelia das mães e sem que estas tivessem direito ao menor contato com as crianças.

Martin Sixsmith, um ex-correspondente da BBC em Moscou e ex-porta-voz de um Ministro durante o governo de Tony Blair, dispensado por um suposto erro que ele alega não ter cometido, aceita, por puro oportunismo e necessidade, a proposta de procurar o filho de Philomena desaparecido há 50 anos, e escrever um artigo sobre o que é pejorativamente chamado de "aventura humana" - que ele considera como subjornalismo. Assim, desde o início, o filme denuncia a hierarquia cultural e intelectual dos assuntos dentro das redações e o cinismo de alguns jornalistas e redatores-chefes, que se mostram eventualmente mais preocupados com o objeto de suas pautas e com a repercussão sensacionalista que seus artigos possam vir a ter do que com os sentimentos dos seres humanos envolvidos nas tragédias contadas. O que deveria ser o sujeito da matéria transforma-se em objeto do sensacionalismo comercialista.

Ao longo do périplo quase iniciático em busca do filho, os dois personagens sofrem influências múltiplas e chegam ao final ligeiramente modificados, sem que suas respectivas convicções sejam abaladas. Philomena mantém sua religiosidade, mas aprende a duvidar e a questionar - como mostra a cena no interior de uma igreja nos Estados Unidos. Ao padre que insiste para que ela confesse os seus pecados, ela prefere o silêncio. Ao sair, ela ignora totalmente a água benta, filmada em primeiro plano. Martin não deixa de ser ateu, mas torna-se menos intolerante em relação a fé da enfermeira, o que ele demonstra dando-lhe de presente uma imagem religiosa na última cena do filme. Além disso, mais humanizado, o jornalista está disposto a renunciar ao seu artigo, enquanto Philomena decide publicá-lo, demonstrando que sua fé e seu perdão às irmãs não devem ser confundidos com conivência em face das arbitrariedades cometidas.

O filme possui uma bela fotografia (do fotógrafo Robbye Ryan, o mesmo de "A parte dos anjos", o mais recente filme de Ken Loach), uma trilha sonora eficaz (do maestro francês Alexandre Desplat) e um roteiro bem estruturado com diálogos interessantes e personagens bem construídos, dramática e psicologicamente, ainda que eventualmente caricaturais. A história simples e comovente, que alterna momentos cômicos com outros um pouco mais dramáticos sem jamais cair no dramalhão, é toda construída em torno da diferença entre os dois personagens (a fabulosa Judi Dench e o correto Steve Coogan), assim como de suas personalidades, completamente diferentes e opostas. Desta forma, a religiosidade, a capacidade de perdoar, a simplicidade e a simpatia da enfermeira opõem-se constantemente ao ateísmo, à soberba intelectual e ao desejo quase revanchista de justiça do jornalista. Diferentemente de Martin, Philomena não se considera uma vítima. Apesar da dor sentida pela perda do filho, ela se julga merecedora da punição, uma vez que chegou mesmo a sentir prazer durante o ato sexual considerado como pecaminoso e imperdoável ao olhos de Deus. Além disso, o desprezo com o qual o intelectual inglês trata inicialmente uma representante do povo irlandês simboliza, de forma sutil, a maneira pretensiosa como os dirigentes políticos da Inglaterra sempre perceberam e trataram os irlandeses. Mas a obra não se contenta em ser uma comédia de contrastes e, bem ao gosto de seu diretor que venera a mistura de gêneros, apresenta também alguns elementos da comédia romântica, do buddy movie e do filme policial.

O único problema do roteiro concerne algumas imagens da infância do filho de Philomena. Se as imagens do passado da enfermeira parecem narrativamente justificadas, aparecendo como imagens mentais motivadas por suas lembranças, os flashforwards de algumas imagens, que os dois personagens descobrem apenas no desfecho da obra, aparecem como uma intromissão maneirista de um Deus ex-machina.

A montagem e a direção constituem outros pontos fracos do filme. Se a primeira contenta-se apenas em justapor os planos, sem necessariamente criar uma interação entre eles além da simples continuidade temporal, a segunda, extremamente discreta e convencional, prefere transferir o protagonismo a seus dois atores, o que torna a narrativa um tanto banal e pontualmente enfadonha.

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