Críticas


CLUBE DE COMPRAS DALLAS

De: JEAN-MARC VALLÉE
Com: MATTHEW McCONAUGHEY, JARED LETO, JENNIFER GARNER
21.02.2014
Por João de Oliveira
Uma boa história bem contada, com atores convincentes

Vários críticos e pesquisadores tentaram (tentam e tentarão), sempre de maneira mais ou menos subjetiva, responder às interrogações sobre quais seriam os componentes e as características de um bom filme. Todos parecem apontar para o consenso de que, de modo geral, a crítica mais intelectualizada privilegiaria as questões estéticas e formais, apanágios do "verdadeiro" artista, intérprete do mundo, e nutriria um certo desprezo pela intriga e pela técnica (o que o radical crítico François Truffaut considerava, surpreendentemente, como um dos sete pecados da crítica cinematográfica), características que seriam valorizadas pelos "artesãos". Para os interessados por filmes mais intelectualizados ou mais rebuscados estética e/ou formalmente "Clube de Compras Dallas" não constitui um grande filme, um grande atrativo.

Dirigido pelo cineasta canadense Jean-Marc Vallée, o filme - que narra os últimos sete anos da vida de um eletricista bon vivant e apaixonado por rodeio, mulheres, álcool e drogas - é de uma imensa simplicidade. Nesse caso, ele seria mais voltado para aqueles interessados em uma boa história bem contada, com atores convincentes em seus papéis ou ainda para aqueles que não consideram, aprioristicamente, a simplicidade como um trunfo nem, tampouco, como uma deficiência, como um obstáculo ao prazer.

Após um banal acidente de trabalho, Ron Woodroof descobre, em 1985, ser portador do vírus HIV, uma doença considerada até então como restrita aos homossexuais, e ter apenas trinta dias de vida. A partir desse momento, o cowboy começa uma luta pela sobrevivência, contra o preconceito de seus antigos amigos, profundamente machistas, mas sobretudo contra a corrompida FDA (Food and Drugs Administration), instituição preocupada mais em preservar os ganhos dos grandes laboratórios americanos que em respeitar e garantir os direitos dos consumidores ; uma batalha que só termina com a sua morte em 1992. Com o apoio de um médico marginalizado pelo sistema e de muitos grupos gays, ele tenta demonstrar as vantagens da medicina alternativa e o aspecto tóxico do AZT (único remédio autorizado pela FDA e que custava 10 mil dólares por ano e por paciente aos cofres do Estado americano) quando utilizado isoladamente (uma tese polêmica e longe de ser uma unanimidade), o que já teria sido provado quando de seu uso contra o câncer.

Atenção, os dois próximos parágrafos contêm informações do enredo que devem ser evitadas por quem ainda não viu o filme

Como os remédios alternativos não eram proibidos nos Estados Unidos mas apenas não autorizados, Ron, que como um bom malandro adora um dinheiro fácil, transforma-se em um verdadeiro homem de negócios, viajando pelo mundo e importando os medicamentos que ele distribui aos membros de de seu clube que pagam, não os remédios que ele não está autorizado a vendê-los, mas uma mensalidade. Seu sucesso incomoda. Desse modo, apesar da comprovada eficácia dos seus produtos, os laboratórios pressionam a FDA para que ela apreenda todo os estoques dos diversos clubes (Havia, na época, em torno de uma dúzia espalhados pelos Estados Unidos), a fim de que o AZT continuasse a ser o único remédio vendido para o Estado americano. A vida (salva ou ainda que apenas prolongada por esses medicamentos alternativos) das pessoas não tinha a menor importância. O que importava era que esses clubes punham em evidência a ineficácia do AZT, provando que ele destruía as células e tornava o paciente mais vulnerável, o que ameaçava as vultosas receitas dos laboratórios.

Se no início a iniciativa de Ron é extremamente individualista e visa apenas prolongar a sua vida e obter, como todo capitalista, o lucro, aos poucos ele vai transformando-se em um homem consciencioso, que encomenda pesquisas e testa os seus medicamentos antes de vendê-los até virar, no final do filme, um defensor incondicional da causa dos portadores do vírus, uma espécie de David em sua infatigável luta contra o Golias simbolizado pelos grandes laboratórios e seus lobistas. Aos poucos ele vai percebendo que os homossexuais são, além de aliados, seus únicos amigos.

Além dos diversos tipos de preconceitos, o roteiro do filme, que é muito bem contextualizado, denuncia também a ignorância e a total falta de informação inicialmente existentes em relação aos portadores do vírus e aos modos de transmissão da doença, como mostram a cena do reencontro com seus amigos no bar e o decreto de expulsão colado pelo proprietário na porta da casa na qual o personagem principal vive, depois que todos ficam sabendo que ele é soropositivo.

Embora não chegue a comprometer o produto final, a direção, de uma simplicidade afligente, é o ponto mais fraco do filme. Do primeiro ao último plano, ela parece baseada na iminência de uma morte que parece espreitar continuamente os personagens e impregna toda a narração do filme. Os planos são quase sempre fechados, com pouca ou quase nenhuma profundidade de campo, de maneira a melhor exprimir a falta de horizonte e de perspectivas dos personagens doentes. A ideia em si não é má. O que incomoda é o monotematismo e a repetição incessante, o que termina por revelar e banalizar o sistema.

A narração, interessante, dá constantemente a impressão de seguir o ritmo do personagem, que não tem tempo a perder e quer fazer tudo ao mesmo tempo. Dessa forma, como o personagem que vive a mil por hora, a montagem e a câmera na mão (ou no steadycam) são nervosas, aceleradas, sobretudo no início quando, ignorando os supostos perigos do AZT, ele o consome junto com o álcool e as drogas.

O principal ponto de destaque do filme é a direção de atores. Matthew McConaughey, que filme após filme vem demonstrando ser um ator extremamente talentoso, e Jared Leto, que interpreta com perfeição e realismo o transexual Rayon, estão excelentes.

Se do ponto de vista estético "Clube de Compras Dallas" não apresenta muitos interesses, do ponto de vista temático ele é, como disse Marc Ferro, um excelente agente da história (da pequena história), um ótimo documento de época que testemunha com simplicidade sobre os obscurantismos de um passado ainda recente (e talvez ainda presente), denunciando com eficácia a falta de escrúpulos de laboratórios que utilizam a vida humana como simples cobaias.

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