Críticas


VIDAS AO VENTO

De: HAYAO MIYAZAKI
21.02.2014
Por Carlos Alberto Mattos
Um filme complexo e discutível, atraente e um tanto repulsivo

Há motivos de sobra para nos deslumbrarmos com a animação Vidas ao Vento. A sutil combinação de desenho tradicional com finalização digital, o detalhismo naturalista das paisagens urbanas, a sugestão perfeita dos movimentos, a palheta de cores, tudo comprova a excelência dos trabalhos de Hayao Miyazaki e do seu estúdio Ghibli. Mas há razões também para acharmos esse filme distante dos melhores do veterano diretor.

Aqui faltam os elementos de magia e estranhamento que temperavam o sentimentalismo de outros longas seus. Vidas ao Vento é uma combinação – não tão harmônica assim – de uma aventura industrial, baseada num mangá de 2009 do autor, com uma história de amor inspirada em novela de Tatsuo Hori de 1938. As duas histórias correm paralelas, sem nunca formarem uma unidade. Tive dificuldade em me conectar com a história desse menino-prodígio que desenhou o famoso avião Zero da Mitsubishi para os militares japoneses derramarem bombas sobre os aliados na II Guerra. Em dado momento, eu estava cansado de discussões sobre flaps, engates e rebites de cabeça chata.

Politicamente, o filme é uma cumbuca cheia de espinhos. É bem verdade que, junto a um certo tom patrioteiro, Miyazaki também veicula a amargura de uma consciência pesada. Nesse estranho balanço de culto à beleza, empenho militarista, experiência do fracasso e autoquestionamento moral, Vidas ao Vento se mostra ao mesmo tempo complexo e discutível, atraente e um tanto repulsivo.

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