Críticas


DOGMA DO AMOR

De: THOMAS VINTERBERG
Com: JOAQUIN PHOENIX, CLAIRE DENIS, SEAN PENN
09.03.2004
Por Daniel Schenker
TRANSCENDÊNCIA FAKE

Thomas Vinterberg deseja mostrar que aspira à transcendência. Em Dogma Do Amor , procura deixar a impressão de que propõe uma visita a camadas mais sutis de percepção através de uma experiência sensorial (visual, sobretudo) capaz de levar o público a se descolar de uma tradicional apreciação racional. No entanto, suas ferramentas são absolutamente formais.



Durante toda a projeção, o cineasta adota um determinado poder de manipulação sobre o espectador ao tentar fazer com que a desestabilização, a vertigem e o êxtase que invadem as personagens transbordem da tela para a platéia. Mas estas “impressões” surgem transcritas apenas num padrão estético esquemático instituído como porta de entrada para o processo de realização. Não por acaso, fotografia (de Anthony Dod Mantle), direção de arte (Jette Lehmann) e trilha sonora (a cargo de Nikolaj Egelund e Zbigniew Preisner, este último parceiro habitual do falecido Krszystof Kieslowski e integrante da equipe de Coração iluminado , de Hector Babenco) não se dissolvem de modo orgânico. Como resultado, a travessia sinistra percorrida por um casal recém-reconciliado rumo ao rompimento com um esquema conspiratório e ao encontro com a liberdade acaba esvaziada na tela grande.



Trabalho fake destituído, porém, da precisão artística da artificialidade – ou, talvez seria melhor dizer, da marcação assumida –, Dogma Do Amor investe numa abordagem metafórica de estados de alma (com o congelamento meteorológico do mundo simbolizando a crescente insensibilidade do ser humano em relação aos semelhantes) que reduz o seu poder de alcance ao valor da transmissão didática de determinadas mensagens. O diretor ambienta a sua história no futuro próximo mas segue por um caminho inverso ao que conduz ao sublime encontro com o presente, objetivo maior do movimento Dogma 95 (e a tradução brasileira do original It´s All About Love aproveita o título) alcançado, em boa parte, por Os Idiotas , de Lars Von Trier, e almejado por Festa De Família , assinado por um Vinterberg bem diferente daquele que aqui se apresenta.



# DOGMA DO AMOR (It´s All About Love)

EUA/JAPÃO/INGLATERRA/SUÉCIA/DINAMARCA/ALEMANHA/HOLANDA, 2003

Direção: THOMAS VINTERBERG

Roteiro: MOGENS RUKOV, THOMAS VINTERBERG

Elenco: JOAQUIN PHOENIX, CLAIRE DENIS, SEAN PENN

Duração: 104 minutos

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