Críticas


TUDO POR UM FURO

De: ADAM MCKAY
Com: WILL FERREL, STEVE CARELL, PAUL RUDD
28.02.2014
Por Octavio Caruso
Comédia que instiga uma importante crítica ao jornalismo televisivo

Como é ingrata a realidade dos comediantes. Uma trama dramática pode se arrastar por longas horas, com câmeras captando o vazio de plantações de milho por minutos, que sempre haverá uma maioria de analistas encontrando profundos sentidos intelectuais até no vento que afasta uma nuvem. Mas uma trama cômica pode apontar descaradamente o dedo em uma intensa crítica social, enquanto entretém o público, que a maioria irá descartá-la como algo bobo. E a realidade é que existe muito mais coragem na crítica que “Tudo Por um Furo” realiza, do que em muitos projetos engajados, pretensamente conscientes e sérios. Billy Wilder era mestre nessa arte de dizer grandes verdades com um sorriso em seus roteiros.

Vivemos na era da indústria de trilogias, sequências que já são elaboradas antes mesmo da finalização do primeiro projeto, então é uma satisfação reencontrar um personagem como Ron Burgundy, que retorna organicamente por demanda popular. Will Ferrell criou um dos melhores personagens de humor de sua geração, uma caracterização eficiente inserida em um pano de fundo rico em possibilidades. Até mesmo quando as situações cômicas excedem os limites do nonsense, soando gratuitas, potencializam ainda mais a estupidez que denunciam. O alvo, o jornalismo televisivo da década de oitenta, com sua busca desesperada por índices de audiência. Jornalismo como entretenimento, dando ao público o que ele quer e não o que ele necessita. E um dos momentos mais interessantes do filme ocorre exatamente quando os personagens constatam que a mediocridade nos veículos de comunicação sobrevive porque existe um público que a consome vorazmente. O interesse cada vez maior dos espectadores pelo lixo típico de tabloides acabou desestimulando os profissionais que valorizavam a notícia como ferramenta séria de informação.

Vivemos essa triste realidade, com âncoras se tornando estrelas reconhecidas por suas opiniões polêmicas, apresentadores sensacionalistas que cospem perdigotos na cara do espectador, enquanto tentam tornar mais empolgante uma perseguição policial acompanhada por helicóptero. A superficialidade sem tons de cinza subjugando o estímulo aos questionamentos racionais. O que importa é manter o espectador assistindo pelo maior tempo possível, comprando os produtos que patrocinam os programas, cada vez mais distante de qualquer atividade que o instigue ao autoconhecimento e pensamento crítico próprio, como a leitura. E essa necessária reflexão é despertada entre uma hilária tirada do impagável homem do tempo (vivido por Steve Carrell) e a distorcida visão de mundo machista do jornalista esportivo (vivido por David Koechner). E se você acredita que são dois tipos caricaturais inexistentes na nossa realidade, basta passar alguns dias consumindo o entretenimento oferecido pela “Rede TV”, por exemplo.

O roteiro se arrisca bastante, como todas as comédias deveriam fazer, então compreensivelmente existem vários “tiros n’água”. Mas as piadas que funcionam são maioria e resultam num entretenimento mais satisfatório que o filme original. Destaco aqui o drama vivido por Burgundy quando ele se descobre cego e um interlúdio musical que ocorre no terceiro ato, onde o protagonista declara seu amor por um “inexpressivo” (tirada sensacional) tubarão. Besteirol? O verdadeiro besteirol é a realidade absurda que o roteiro tão bem satiriza.

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