Críticas


TOQUE DE MESTRE

De: EUGENIO MIRA
Com: ELIJAH WOOD, JOHN CUSACK, KERRY BISHÉ
23.03.2014
Por Octavio Caruso
Metáfora para o pavor de um artista que enfrenta o público após sentir o gosto do fracasso

Analisando com olhos que buscam verossimilitude, até mesmo o clássico de Hitchcock: “Um Barco e Nove Destinos” poderia ser criticado como altamente ilógico e cheio de furos. Ao percebermos que a trama é uma desculpa, com os sobreviventes no barco sendo uma metáfora que representa a sociedade alemã perante a ascensão do nazismo, começamos a nos focar em outros detalhes. É muito fácil descartar “Toque de Mestre” como tolo pela sua trama e eventuais implausibilidades narrativas, mas o elemento mais importante em um suspense é a eficiência do roteiro/direção na elaboração das cenas. E levando em consideração que o roteiro foi escrito pelo fraco Damien Chazelle (de “O Último Exorcismo – Parte 2”) e a direção ficou a cargo do pouco experiente espanhol Eugenio Mira, achei válido o resultado final desse projeto que tinha tudo para ser uma catástrofe.

É interessante notar na iluminação e no trabalho frenético de câmera a óbvia inspiração nas obras que Brian De Palma realizou no gênero, especialmente “Vestida Para Matar”. Sua estrutura minimalista e claustrofóbica, que remete a “Por Um Fio” e “Velocidade Máxima”, acompanha um pianista (Elijah Wood) que executa seu concerto mais difícil após cinco anos se recuperando de um fiasco profissional, sabendo que irá morrer caso seus dedos errem alguma tecla do piano. John Cusack, num trabalho que prima pelas nuances em sua voz, interpreta o enigmático atirador que também ameaça a esposa da vítima, interpretada por Kerry Bishé.

A voz é uma metáfora para o intenso pavor interno de um artista que tenta resgatar a coragem necessária para enfrentar novamente um público após um evento traumático, sabendo que a sua vida e a de sua família dependem de sua competência dedilhando o piano que era de seu mentor. A ideia de que em cada peça musical de pura beleza ocorre uma ingrata batalha entre a genialidade por trás da composição e os esforços tremendos do homem que treina para pôr em prática a complexidade de emoções propostas pelo autor. Deixando clara a função simbólica da trama, a motivação do terrorista, como em todos os filmes de temática similar, não é o foco do roteiro. Não dá para desprezar, por exemplo, a criatividade técnica empregada na melhor cena, onde o pianista luta para se comunicar pelo celular, enquanto se mantém tocando o piano. Também é impossível relevar um terceiro ato que desperdiça o potencial revelado nos primeiros trinta minutos, abraçando uma previsibilidade típica de roteiros escritos por estudantes.

O filme possui vários problemas, excesso de diálogos expositivos e alívios cômicos pouco eficientes, mas em sua curta duração satisfaz precisamente naquilo que se propõe a oferecer.

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