Críticas


TUDO POR JUSTIÇA

De: SCOTT COOPER
Com: CHRISTIAN BALE, ZOE SALDANA, WOODY HARRELSON, FOREST WHITAKER
30.03.2014
Por Octavio Caruso
A resiliência ao aprender a tolerar o calor da fornalha

O diretor Scott Cooper, em seu segundo projeto, tem facilidade de extrair interpretações viscerais de seus atores. Conseguiu isso com Jeff Bridges no anterior “Coração Louco”, repete o feito com Woody Harrelson (Harlan) e Christian Bale (Russel), que definitivamente deveria ter sido indicado ao Oscar por esse trabalho. Revelar muito sobre a trama nesse caso é um desserviço ao espectador, então irei me ater ao básico.

Sem se preocupar em obedecer as regras estruturais do gênero, o roteiro (de Brad Ingelsby e do próprio Cooper) toma bastante tempo no desenvolvimento da relação do protagonista com seu irmão caçula problemático, vivido por Casey Affleck. O cenário é uma depressiva cidade de interior, cujos habitantes sofridos não compram a ideologia esperançosa de um recém-eleito Barack Obama (o filme se passa em 2008). Arrumar trabalho numa caldeira já é considerado por eles uma grande conquista. Assistimos com os personagens o declínio das indústrias pesadas na América e o consequente impacto que esse declínio causa nas pequenas comunidades que dependem delas. Como o ótimo título original insinua em metáfora, não existe possibilidade de eles saírem de perto da fornalha, apenas aprendem resilientes a tolerar o calor infernal.

São perceptíveis óbvias referências ao trabalho de Michael Cimino em “O Franco Atirador”, explorando a caça como analogia (a recusa de Russel em atirar, mesmo quando o animal está na mira) e com breves questionamentos sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra, sendo que a intenção não é tanto o panfletarismo político/social, mas sim compor um clima ideologicamente opressivo o bastante para que nos levemos a questionar, assim como os personagens, a linha tênue que separa a justiça do vigilantismo e aquela praticada nos tribunais.

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