Críticas


CORTINAS FECHADAS

De: JAFAR PANAHI
Com: KAMBUZIA PARTOVI, MARYAM MOQADAM, JAFAR PANAHI
19.04.2014
Por Ricardo Cota
Inventivo até trancado num armário escuro

(Texto publicado originalmente durante o Festival de Berlim de 2013)

Todos nós, autores e leitores deste site, torcemos para o fim das sanções impostas pelo regime iraniano ao diretor Jafar Panahi, condenado a seis anos de prisão e a vinte sem exercer a profissão de cineasta por ser considerado promotor de ”propaganda contra o sistema”. E por isso admiramos sua determinação criativa de. mesmo diante de todas as limitações, encontrar brechas para enviar suas mensagens cinematográficas para o mundo. Mas o principal: seus filmes são de interesse não por ele se encontrar preso, mas por ser inventivo até trancado num armário escuro.

Em Closed Curtain é o que chega a acontecer em pelo menos uma sequência, quando o protagonista, trancado num armário com seu cachorro para não ser descoberto pelo exército, ainda assim filma sua condição iluminando o espaço com apenas uma lanterna. Closed Curtain inicia e termina com o mesmo plano. De dentro de uma casa, o espectador vê o exterior pelas frestas de uma grade. Acompanha-se a chegada de um homem com um cachorro na mochila. O espaço vira exílio para ambos, pois os cães foram considerados seres impuros pelo regime autoritário.

Para maior segurança, o cidadão fecha as janelas com uma cortina evidenciando ainda mais o distanciamento entre ele, seu cão e o mundo. A situação se torna mais tensa quando um casal de refugiados políticos invade a casa, apesar da reação contrária do dono do cachorro. Uma relação de proximidade entre o senhor e a jovem se adensa até que entra em cena o mais inusitado dos personagens: Jafar Panahi, ele mesmo, que passa a dividir o território com seus personagens.

A quebra de barreira entre cineasta e atores propõe mas não realiza supostas pretensões metalinguísticas. Ela ocorre com naturalidade. São dois mundos não conflitantes e muito menos reflexivos. São estruturas que se acumulam e revelam o estado de confusão e de indefinição artística do diretor impedido de exercer seu ofício autoritariamente e que resiste através do simples ato de filmar, de acumular ideias, de criar e de documentar tudo como parte de um único processo.

Closed Curtain, ao contrário do que supõem os reducionistas, não mistura ficção e realidade. Closed Curtain soma ficção e realidade. O cinema de Jafar Panahi deixou de fazer do protesto sua arma. Ele é hoje o cinema da perplexidade, da constatação do absurdo político pelo simples clicar de uma câmera ou mesmo de um smartphone. O protesto é o simples registro, a simples negação a se submeter a uma ordem estúpida de não filmar. As imagens do diretor pacato, ao fogão, esquentando a toda hora um chá tranquilizante, é a sua mensagem mais direta. Em paz, resisto. E em paz registro. A luta continua. Agora também contra a perseguição ao cães.

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