Críticas


PASSAPORTE HÚNGARO, UM

De: SANDRA KOGUT
07.12.2003
Por Daniel Schenker
DOCUMENTO DA INTEGRAÇÃO

“Seu avô nunca conseguiu se sentir em casa, aqui no Brasil”, diz a avó da diretora Sandra Kogut em Um Passaporte Húngaro . Talvez tentando afastar o risco da sensação de vácuo e a perda de vínculos afetivos, a cineasta tenha realizado a sua jornada na busca pela cidadania húngara de seus antepassados. A admirável obstinação de se curvar diante do instituído, ainda que frequentemente sem sentido, para conseguir uma determinada comprovação numa via-crucis por embaixadas, levanta muitas questões em relação a afirmação de uma dada identidade. Entre elas: até que ponto a conquista de um reconhecimento externo através de um documento autenticado é peça fundamental na comprovação de um elo com a própria ancestralidade?



A proposta concreta de Sandra pela obtenção do passaporte não parece organicamente amalgamada na tela à investigação de sua história familiar; mas é emocionante acompanhar a necessidade da realizadora de caminhar em direção ao atávico. Ao contrário do que possa parecer, Um Passaporte Húngaro não soa como um projeto isolado na trajetória de Sandra Kogut, que já tinha demonstrado uma preocupação de abordar o encontro com o lugar de origem (mesmo que não diretamente o seu) através do mergulho na geografia suburbana em Lá E Cá .



Peças burocráticas, os documentos também trazem à tona a memória do mundo – ainda que seu valor seja inferior ao da lembrança pessoal. “É foto de passaporte; parece uma pessoa estranha”, declara a avó da diretora acerca da mãe. Munida de um objetivo palpável no tempo presente, Sandra recolhe informações concretas no Arquivo Nacional e destaca antigos nós que ainda não foram plenamente desatados, como a sustentação da identidade judaica em contextos que exigiam um alto grau de auto-anulação, a preservação da tradição em ocasiões em que não se desejava ou conseguia falar sobre fatos do passado e o eventual comprometimento individual com a ascensão do nazismo no decorrer da década de 30, uma discussão que remete a figuras como Traudl Junge, secretária do Fuhrer que presta seu depoimento no excelente Eu Fui A Secretária De Hitler (leia a crítica), e Leni Riefenstahl, tida como a cineasta oficial do regime hitlerista e peça-chave de uma instigante reflexão sobre o poder do trabalho artístico. Uma ausência a ser notada: a não especificação de cada depoente, todos nominados apenas nos créditos finais.



# UM PASSAPORTE HÚNGARO

Brasil/França, 2001/2002

Direção e roteiro: SANDRA KOGUT

Produção executiva: MARCELLO MAIA

Fotografia: FLORENT JULLIEN, FLORIAN BOUCHET e SANDRA KOGUT

Montagem: MÔNICA ALMEIDA e SANDRA KOGUT

Trilha sonora: PAPIR IZ DORKH VAIS e YAH RIBOH

Duração: 72 minutos

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