Críticas


O CONGRESSO FUTURISTA

De: ARI FOLMAN
Com: ROBIN WRIGHT, HARVEY KEITEL, DANNY HUSTON
05.06.2014
Por Carlos Alberto Mattos
Animação inventiva e um argumento fascinante

O Congresso Futurista (em cartaz no Cine Joia, Rio) chega com as altas expectativas geradas pelo filme anterior de Ari Folman, o animadoc Valsa com Bashir. Mais uma vez ele usa a animação de maneira muito inventiva, agora para criar um mundo alucinatório no futuro, em que as pessoas consumirão seus ídolos não apenas pelos produtos culturais, mas por todas as vias possíveis, inclusive transformando-se em Frida Kahlo, Michael Jackson ou Jesus Cristo. Na verdade, temos dois filmes reunidos em um só.

No primeiro, a atriz Robin Wright vive uma versão decadente de si própria, uma atriz de carreira fracassada que aceita ser escaneada para se tornar uma imagem digital à mercê dos interesses dos produtores de Hollywood. A cena do escaneamento, aditivada por um monólogo de Harvey Keitel, é um primor. Na segunda parte, 20 anos depois, Robin comparece ao tal Congresso Futurista (inspirado numa novela de Stanislaw Lem, o autor de "Solaris") que se passa numa outra dimensão onde tudo é desenho animado. A passagem entre as duas dimensões é feita à base de aditivos químicos, o que inspira a psicodelia delirante da animação.

A princípio fascinante, essa viagem de ácido pretende retratar a transformação das personalidades em produtos de consumo sob o pretexto do "livre arbítrio" absoluto. A liberalidade conduz, portanto, a uma distopia hipercolorida que nada mais é do que a abolição completa do Eu. Estamos um passo além do simulacro pós-moderno, ou seja, no vácuo absoluto das fantasias. O grande problema do filme é encontrar um caminho de volta à questão inicial da personagem de Robin Wright. A procura do filho portador de deficiências e perdido entre as duas dimensões parece mais um estorvo do que um instrumento da narrativa. Há um excesso de ideias, citações e caminhos intrincados que ofuscam o brilho do argumento central. Ainda assim, é um filme de ambições acima da média e de notável criatividade gráfica e cenográfica. E tem Robin Wright, a eterna Princesa Prometida, num papel de corajosa autocrítica que me deixou boquiaberto.

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