Críticas


O LOBO ATRÁS DA PORTA

De: FERNANDO COIMBRA
Com: LEANDRA LEAL, MILHEM CORTAZ, FABÍULA NASCIMENTO
07.06.2014
Por Daniel Schenker
Ao longo da projeção, o não dito adquire mais força que a palavra.

Em “O lobo atrás da porta”, o desaparecimento de uma menina traz à tona o vínculo entre um homem (Bernardo) e sua amante (Rosa). O diretor Fernando Coimbra lança eventuais pistas falsas sugerindo que a trama pode ter acontecido de forma diversa. Entretanto, os desdobramentos – que evocam o famoso caso da Fera da Penha e suscitam conexões com a tragédia Medeia, de Eurípedes – não despontam como os grandes atrativos desse filme, que surpreende por outras razões.

Ao longo da projeção, o não dito adquire mais força que a palavra. Coimbra imprime atmosfera que remete a Nelson Rodrigues ao, por exemplo, valorizar o subúrbio do Rio de Janeiro, que se torna personagem fundamental. Mais do que escolhas aleatórias, os bairros de Oswaldo Cruz e, principalmente, de Marechal Hermes enriquecem os perfis de Bernardo e Rosa, personagens que travam elo explosivo.

Além disso, a câmera (fotografia de Lula Carvalho) expressa, informa, prova que o acesso do espectador ao filme não se dá necessariamente a partir do que os personagens falam. Determinadas operações realçam essa questão. Uma diz respeito ao modo como o detetive encarregado de investigar o sumiço da menina é apresentado ao público. De início, a plateia não o vê, apenas ouve a sua voz; depois, ele aparece, mas de costas; só surge de frente diante de uma personagem-chave como Rosa. A outra se refere ao dimensionamento, também através de recurso não verbal, da relação distanciada entre Rosa e os pais. As figuras de um pai que não fala e de uma mãe que fala, mas quase não é vista, potencializam a frieza do contato.

E não há como deixar de mencionar o elenco. Leandra Leal está excelente, transmitindo plenamente as nuances de Rosa. Não brilha sozinha. Cabe chamar atenção para a admirável espontaneidade conquistada pelos atores, em especial Fabíula Nascimento, Milhem Cortaz, Juliano Cazarré, Karine Teles e Thalita Carauta.



Crítica publicada no jornal O Globo no dia 04/06/2014



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