Críticas


CÃES ERRANTES

De: TSAI MING-LIANG
Com: LEE KANG-SHENG
21.06.2014
Por Gabriel Papaléo
A opressão da cidade e a nostalgia do nunca visto

Um quarto desconfortável abriga a família. Enquanto as duas crianças dormem, a mãe penteia o cabelo roboticamente, como se mal demonstrasse vida no meio da inércia. Em meio ao movimento da cidade, aos carros no semáforo e ao ensurdecedor barulho do cotidiano, homens se equilibram com anúncios na mão, lutando ainda contra um vento implacável, para obterem êxito na frustrante tarefa que lhes foi incumbida. Há um mal-estar inerente ao estado catatônico no qual o ser humano lida com a rotina das grandes cidades, e o diretor Tsai Ming-Liang transformou em marca de filmografia o questionar dessa desordem cosmopolita.

Ming-Liang, malaio radicado no país, aborda uma Taiwan contemporânea com uma desesperança proporcional ao movimento da mesma. A ilha, tão transitória do rural para o urbano como a China que a conquistou, estabelece a vida dos personagens como se eles parecessem sofrer desse conflito de pertencimento até hoje. As mãos sempre trêmulas do protagonista sinalizam o desconforto já instalado desde o princípio. Na triste canção que entoa, o homem vivido por Lee Kang-Sheng se pergunta por “quando acabarão os problemas do império”, uma visão sofrida que demonstra muito sobre o social distópico construído pelo filme. E no meio da implacabilidade da cidade, onde a paz da riqueza aparece apenas como um sonho distante, a fuga é elemento central. O campo como refúgio, então, é o primeiro lastro de desenvolvimento de personagens que o diretor apresenta em Cães Errantes, sua elegia cinematográfica.

Nessa reflexão, o diretor começa trabalhando em perspectivas. A praia na qual os filhos do personagem central brincam surge um tanto idílica, o enquadramento a captura como se fosse uma miniatura, um simulacro. A visão contemplativa do menino à beira da água indica o último vislumbre de paz, como se o horizonte do mar representasse a fuga dos problemas. Já na cidade, tudo tende ao claustrofóbico, com o protagonista visto sempre como ameaçado pela câmera, seja para estabelecer mecanicamente o papel social (a postura quase congelada na qual ele segura a placa), seja para ilustrar a vida aprisionada pela cidade (no brilhante jogo de close e plano conjunto que mostra o homem atrás do arame farpado).

A arquitetura de Taipei, tão personagem quanto a família, tem o surrealismo natural realçado pelos enquadramentos de Ming-Liang. As edificações da cidade constantemente oprimem os personagens, tornando a compreensão acerca daquele ambiente atordoante, desolador. A escada da casa da mãe das crianças, como maior exemplo, remete às estruturas impossíveis de Escher. E além da estranheza inerente ao lugar, Ming-Liang trabalha com a direção de arte para expressar de forma sutil o mal da cidade. A casa da esposa, vista como lugar organizado, tem assustadoras queimaduras na parede. A sujeira contemporânea se estende até aos ambientes mais ricos, e a desesperadora solidão urbana atinge até mesmo quem parece mais abastado.

As cenas dilatadas, que não se apressam em estabelecer a atmosfera necessária para atribuir sentido ao ocorrido, transmitem essa degradação generalizada que atinge o setting de Cães Errantes para então utilizar o próprio setting como conflito para os personagens. Um problema saindo do micro para o macro, inclusive, é sentido na cena em que o homem abandona seu posto com a placa. Um leve movimento de câmera revela que há muitos outros como ele, ali; histórias diversas a serem desvendadas, ou imaginadas.

Perdido, alheio às convenções incompreensíveis da cidade, o protagonista tenta encontrar saídas no meio do próprio caos. O alcoolismo nunca vira tópico de discussão, ainda mais em um filme como este, no qual raramente o que é dito importa mais do que o ilustrado, mas é introduzido como sugestão de fuga para o homem. Mesmo os pequenos sinais do agora se tornam ameaças ao bem-estar do personagem central sob sua ótica. A globalização se instala através de passagens despretensiosas (o canto de parabéns em inglês, a blusa do homem no supermercado) e adicionam incompreensão à alienação do protagonista diante da miséria.

Se a imobilidade atinge os personagens em todos os aspectos, em relação ao tempo não podia ser diferente. Nas cenas mais densas de Cães Errantes, como a do repolho, Ming-Liang privilegia as emoções contidas em simples expressões faciais para transmitir toda a angústia que atravessa os 138 minutos de projeção. Os dois closes mais imponentes do filme são também os mais importantes: o canto do protagonista e o plano de treze minutos dele e a esposa contemplando algo que não é visto. A dor e o abandono são sentidos pelos rostos sofridos, baqueados pelo peso do tempo, e para o diretor não há imagem mais verdadeira. Não é por acaso que os personagens apenas encontram algum alento no afeto entre eles, nesse conceito tão alheio à urbanidade que é o fator humano. A imagem que deixa os personagens quase catatônicos não poderia ser outra além da representação de um campo vasto, ilusório em sua profundidade. A representação de uma natureza impossível, numa edificação inabitável.

E na Taipei de Tsai Ming-Liang, a única arma contra o distúrbio social que é a opressão de uma cidade implacável é essa nostalgia do que não se viveu.

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