Críticas


AMÉM

De: COSTA-GAVRAS
Com: ULRICH TUKUR, MATHIEU KASSOVITZ, ULRICH MÜHE, MICHEL DUCHAUSSOY
07.01.2004
Por Daniel Schenker
ENFOQUE DIFERENCIADO

O Holocausto vem sendo retratado pelo cinema com bastante frequência e, apesar de se tratar de uma evidente generalização, não há como deixar de notar que as produções ficcionais, mesmo quando calcadas em figuras verídicas, tendem a investir num jogo de manipulação emocional com o espectador através de abordagens tão contundentes quanto passivas, nas quais a encenação se torna evidente, banalizando, ao invés de potencializar, o real. Distantes da re-construção da veracidade do depoimento, alguns filmes anunciam um respeito e uma tentativa de reconstituição fidedigna da sobrevida cotidiana em guetos e campos de concentração mas deixam entrever, porém, uma postura acomodada no que diz respeito à reprodução de imagens de horror que, longe de deverem ser ignoradas, não contribuem, se desvinculadas de uma proposta mais consistente, para a atualidade de uma discussão sobre acontecimentos que não podem ser encarados apenas sob uma perspectiva meramente historicista.



Ainda que a base temática – as sucessivas tentativas de convencimento do trágico destino que o povo judaico estava encontrando nos campos de concentração – e a estrutura – as infindáveis idas e vindas dos trens de carga destinados ao carregamento humano rumo à morte provável – de Amém sejam reiterativas, o filme de Costa-Gavras, escorado na peça Der Stellvertreter , de Rolf Hochhuth, demonstra disponibilidade para uma abordagem menos batida. Afinal, o cineasta valoriza aqui a omissão e o consequente comprometimento do Vaticano com o assassinato em massa dos judeus já em meados da década de 30 e, numa esfera mais localizada, os dramas de consciência de cada indivíduo e de cada nação.



De fato, há uma distância evidente entre as boas intenções e o resultado da realização: a “originalidade” no enfoque não acompanha uma assinatura autoral da direção, fato evidenciado na presença de algumas situações construídas a partir de contrastes esquemáticos, na utilização melodramática da trilha sonora em determinados momentos e nos esforços forçados de tornar multifacetados os conflituados protagonistas – Kurt Gerstein, um oficial da SS que existiu realmente (interpretado por Ulrich Tukur), e o padre Riccardo Fontana (Mathieu Kassovitz), ambos engajados no alerta mundial frente ao extermínio judaico, otimizado com a descoberta da “eficiência” do gás Zyklon B. No entanto, os personagens não deixam de trazer traços distintivos, a exemplo das semelhanças entre o padre e o Aliocha Karamazov de Dostoievski, conectados no elo com a humanidade.



# AMÉM (AMEN)

França/Romênia/Alemanha/EUA, 2002

Direção: COSTA-GAVRAS

Roteiro: COSTA-GAVRAS & JEAN-CLAUDE GRUMBERG

Produção: COSTA-GAVRAS, ANDREI BONCEA & MICHÈLE RAY-GAVRAS

Trilha Sonora: ARMAND AMAR

Fotografia: PATRICK BLOSSIER

Elenco: ULRICH TUKUR, MATHIEU KASSOVITZ, ULRICH MÜHE, MICHEL DUCHAUSSOY

Duração: 132 minutos

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