Críticas


O ESPELHO

De: MIKE FLANAGAN
Com: KAREM GILLAN, BRENTON THWAITES
04.07.2014
Por Octavio Caruso
A montagem embaralha o cérebro, ao invés de sobrecarregá-lo com sustos mecânicos.

O terror é um dos gêneros mais difíceis de serem trabalhados, já que é essencial criatividade, atitude e alguma ousadia; por conseguinte, correr riscos (exatamente o que os estúdios evitam). Um respeitável drama pode se dar ao luxo de ser inofensivo ou falho em diversos aspectos, pois os problemas são relevados em favor dos acertos, mas ninguém passa a mão na cabeça do cineasta que se predispõe a nos fazer suar frio com um simples corte de câmera. É sempre oito ou oitenta, o produto funciona ou não. E normalmente somos presenteados com, pelo menos, uns dois ótimos filmes no gênero em um ano, interessantes ilhas em um oceano de refilmagens, cópias e fórmulas desgastadas, eficientes ou não. Ano passado tivemos Invocação do Mal e Somos o que Somos. O Espelho é, até o momento, o valoroso representante desse ano.

Numa espécie de expansão de baixo orçamento do seu elogiado curta-metragem Oculus: Chapter Three – The Man With The Plan, de 2006, o diretor e roteirista Mike Flanagan gasta tempo generoso na criação do suspense, estabelecendo o clima soturno de uma trama que envolve duas gerações, unidas tragicamente pela onipresença de um espelho antigo. A escolha por estruturar a narrativa em recorrentes flashbacks, recurso pouco original, ganha pontos pela inteligência da montagem (do próprio Flanagan), que progressivamente complica a diferenciação entre os dois períodos de tempo, estimulando várias interpretações possíveis, embaralhando o cérebro ao invés de sobrecarregá-lo com uma profusão de sustos mecânicos.

Quem conhece meu estilo, sabe que tento sempre revelar o mínimo possível sobre a trama, ainda mais em obras como essa, pois acredito que a sinopse já é o suficiente para se aproveitar ao máximo a experiência. A atuação de Brenton Thwaites (Tim) representa o ponto fraco da produção, enquanto Karen Gillan (Kaylie), um rosto conhecido dos fãs de Doctor Who, opta por uma abordagem excessivamente séria, até mesmo quando age das formas mais absurdas, diferenciando-se das heroínas no gênero atualmente, que normalmente não disfarçam o pouco comprometimento.

É perceptível ao longo do filme, na atmosfera e em algumas cenas, que o diretor é um apaixonado pelo trabalho de Dario Argento e Lucio Fulci, referências sempre muito bem-vindas em uma época de tantos trambiqueiros found footage (falsos documentários realizados com filmadora comum). O que temo é que, devido ao instigante final em aberto, essa boa ideia acabe sendo desperdiçada em futuras sequências, como ocorreu com o ótimo Jogos Mortais e tantos outros.

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