Críticas


O TEOREMA ZERO

De: TERRY GILLIAM
Com: CHRISTOPH WALTZ, TILDA SWINTON, MATT DAMON
11.07.2014
Por Octavio Caruso
A graça melancólica no caos.

O eterno Monty Python Terry Gilliam retorna à boa forma de “Os 12 Macacos” e “Brazil”, exercitando seu estilo visual característico, mas com senso de humor reduzido. Uma jornada mais pessoal, onde ele (assim como o personagem, no início do filme) encara o vácuo em busca de respostas. Ele utiliza o talento de Christoph Waltz, totalmente careca e, pela primeira vez, como protagonista, para compor sua fábula distópica sobre paranoia institucional. Um hacker cuja existência se limita a trabalhar sem descanso para sua empresa, mas que anseia apenas poder se afastar ainda mais da sociedade, trabalhando em casa. Sendo muito competente, a empresa recompensa-o com seu desejo, porém ele precisa obrigatoriamente encontrar o Teorema Zero, uma equação que comprova que o universo é vazio e que todos nós rumamos inexoravelmente para o filosófico “nada”.

O maior problema do filme é que o roteiro do estreante Pat Rushin falha ao não se impor de igual perante as invencionices visuais do diretor (como a frequente utilização das lentes grande angulares), nunca aprofundando as críticas além da satisfação fonética mecânica pela repetição, como a gag ideologicamente pouco sutil que envolve o protagonista sempre se referir a si próprio no plural. Enquanto isso, algumas ideias mais elaboradas, como a câmera de segurança que é posicionada no lugar da cabeça de Jesus em um crucifixo, poderiam resultar mais contundentes. É agradável encontrar essa coragem nos diálogos, que podem não ser fluidos, mas eles estão inseridos com o único intuito de provocar o espectador, estimulá-lo à reflexão após um breve sorriso. Em um de seus melhores momentos, numa festa onde os presentes não conseguem tirar os olhos de seus celulares, Gilliam consegue realizar uma crítica comportamental muito similar à de Spike Jonze em “Ela”, uma obra que poderia muito bem ser complementar a essa experiência.

Essencialmente, por trás de toda a perfumaria sci-fi proposta no roteiro, trata-se de um simples confronto entre a razão/ceticismo, simbolizada claramente em uma cena com Matt Damon no terceiro ato, e a fé/religiosidade, simbolizada pelo telefonema que ele aguarda de uma divindade que sabe todas as respostas. Quando era mais jovem, ao lado de seus colegas ingleses, Gilliam debochava da necessidade de um sentido para a existência nos ótimos esquetes de “The Meaning of Life”, mas dessa vez encontramos um homem no crepúsculo de sua vida, com a mesma verve irônica maravilhosa, mas perceptivelmente perturbado pelo tema. O resultado final me resgatou boas lembranças do desfecho de “Hannah e Suas Irmãs”, onde o personagem de Woody Allen abraça a finitude com um olhar de fascínio exploratório, aceitando a beleza que se esconde nos detalhes. O personagem de Gilliam não sorri com os “Irmãos Marx”, mas parece entender que existe graça, ainda que melancólica, no caos.

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