Críticas


FILHA DISTANTE

De: CARLOS SORÍN
Com: ALEJANDRO AWADA, VICTORIA ALMEIDA, OSCAR AYALA
18.07.2014
Por Marcelo Janot
É um cinema que não oferece tudo de mão beijada para o espectador

O cineasta argentino Carlos Sorín estreou como diretor em 1986, com a tragicomédia “La película del rey”, premiada no Festival de Veneza. Depois de se aventurar numa malsucedida coprodução internacional estrelada por Daniel Day Lewis, “Eversmile, New Jersey”, ele ficou mais de uma década sem dirigir até retornar, em 2002, com “Histórias mínimas”. A partir daí, Sorín passou a se destacar como um dos mais singulares cineastas argentinos, reconhecido pela capacidade de transformar mínimas histórias ambientadas na Patagônia em narrativas delicadas de forte teor humanista.

Vimos isto em “O cachorro”, e vemos agora de novo em FILHA DISTANTE (“Días de pesca”), um desses filmes em que pouca coisa acontece, mas muito é sugerido pelos pequenos detalhes de uma trama que poderia parecer apenas banal. O que nos é informado sobre o protagonista Marco (Alejandro Awada, em atuação magnífica)? A partir da primeira sequência, num posto de gasolina de beira de estrada, ele diz que tem 50 anos, está indo para Puerto Deseado para pescar tubarões, planeja rever a filha e está curado do alcoolismo. Nos filmes de Sorín, essas informações, fundamentais para quem planeja “seguir a trama”, costumam ser transmitidas homeopaticamente através de diálogos corriqueiros entre os protagonistas e desconhecidos (quase sempre não-atores) com quem cruzam pelo caminho.

A melhor maneira de apreciar a obra de Carlos Sorín, no entanto, não é tentando buscar pistas à espera de um clímax ou de uma grande revelação no final. As odisseias que seus personagens atravessam tendo como cenário as belas e muitas vezes melancólicas paisagens da Patagônia são, sobretudo, viagens interiores, de redescobertas e autoconhecimento, tratadas com inteligência e sutileza. É um cinema que não oferece tudo de mão beijada para o espectador, apelando para o sentimentalismo de best-sellers de autoajuda. A fruição da obra se dá através da intuição, buscando estabelecer no espectador uma identificação com a complexa simplicidade dos personagens.

Vale reparar, por exemplo, como o roteiro se utiliza das metáforas relacionadas à pesca de tubarões para falar da frágil condição emocional de Marco no que diz respeito à sua relação com a filha. Ele nunca pescou na vida, não sabe que necessita de um molinete mais resistente. A pesca, esse ritual solitário que requer paciência, é, portanto, um aprendizado para ele. Joga-se o anzol ao mar, mas não se sabe se será capaz de fisgar a presa. Isso não impede o pescador de seguir sonhando.



Publicado originalmente no caderno Rio Show do jornal O Globo

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