Críticas


EM NOME DE DEUS

De: PETER MULLAN
Com: GERALDINE MCEWAN, EILEEN WALSH, NORA-JANE NOONE
27.01.2004
Por Fernando Albagli
DENÚNCIA PERTURBADORA

Em Nome de Deus poderia ser classificado em mais de um gênero. O que talvez o defina melhor é o filme-de-prisão. Ou, mais especificamente, filme-de-campo-de-concentração. Com um mosteiro no lugar de Auschwitz e a irmã superiora Bridget fazendo um Amon Goeth (de A Lista de Schindler) em hábitos monásticos.



O filme de Peter Mullan - o protagonista de Meu Nome é Joe, de Ken Loach - se vale de fatos reais passados nos anos 1960 para contar o drama de três jovens irlandesas condenadas à reclusão no mosteiro por "terríveis" crimes: Margaret sofre a punição por ter sido estuprada por um primo, Bernadette por ter flertado com alguns rapazes que a cortejaram, e Rose por se tornar mãe solteira, envergonhando a família que a obriga a dar o filho em adoção.



A elas, junta-se Crispina, que já está lá quando as outras chegam. Ela vê de longe o filho que sua irmã traz, às vezes, para visitá-la, sem poder transpor as grades do mosteiro-prisão.



Nada ficando a dever aos grandes vilões do cinema, a irmã Bridget dirige ditatorialmente a instituição, incentivando rituais humilhantes e surras brutais. De nada adianta o desabafo de Bernadette: "Irmã, nunca sequer toquei num homem", que ela responde usando a velha culpa judaico-cristã: "Mas teve vontade, não é?"



Em Nome de Deus é um perturbador olhar sobre a hipocrisia religiosa e sexual. E é assustadora a informação de que somente em 1996 foi fechada a última unidade daquela rede de conventos, com todas as características de presídios, inclusive trabalhos forçados. Numa espécie de metáfora viva, as moças praticam serviços de lavanderia, como se obrigadas a lavar exaustivamente os próprios pecados, algumas até a morte.



O sofrimento, a culpa, a flagelação, como únicas formas de ganhar o Paraíso, não são procedimentos em câmaras de tortura medievais, mas beiram o século 21, em lugares teoricamente santos.



Todas as desconhecidas atrizes do filme estão magníficas. Em especial Geraldine McEwan, como a sádica Bridget, que verte uma lágrima assistindo a Ingrid Bergman num trecho de Os Sinos de Santa Maria, para logo aplicar uma tremenda surra numa interna, e Eileen Walsh, a Crispina, obrigada a praticar sexo oral com um padre e, já enlouquecida, gritando 27 vezes que "ele não é um homem de Deus", numa seqüência constrangedora e perfeita.



Fica claro que Mullan - numa ponta como o pai bêbado que agride a filha - não condena apenas alguns representantes da Igreja, mas os preconceitos religiosos em geral e a própria sociedade intolerante, machista e hipócrita.



EM NOME DE DEUS (THE MAGDALENE SISTERS)

Reino Unido / Irlanda, 2002

Direção e Roteiro:PETER MULLAN

Pfrodução:FRANCES HIGSON, ALAN J. WANDS

Fotografia:NIGEL WILLOUGHBY

Montagem:COLAN MONIE

Música:CRAIG ARMSTRONG

Design de Produção:MARK LEESE

Elenco:
GERALDINE McEWAN (irmã Bridget), ANNE-MARIE DUFF (Margaret), NORA-JANE NOONE (Bernadette), DOROTHY DUFFY (Rose), EILEEN WALSH (Crispina), MARRY MURRAY (Una).

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