Críticas


3 x 3D

De: PETER GREENAWAY, EDGAR PÊRA, JEAN-LUC GODARD
20.07.2014
Por Carlos Alberto Mattos
A tridimensionalidade como barroquismo, caricatura e reflexão

Nesse tríptico de curtas encomendado pela cidade portuguesa de Guimarães para comemorar sua condição de capital cultural europeia de 2012, cada diretor convidado encarou o 3D de uma maneira bem particular.

Peter Greenaway, em Just in Time, viu no recurso um ingrediente a mais para seu barroquismo digital delirante. Igrejas, claustros, museus e ruas da cidade são percorridos por longos travelings, passando por figurantes paramentados e muralhas e cortinas de textos que falam de personagens da história de Guimarães. O efeito é de uma enciclopédia folheada tão rapidamente que você não consegue reter quase nada. Mas é visualmente deslumbrante e leva a virtualidade do 3D a seus limites de expressão.

A prata da casa ficou com Edgar Pêra, cineasta dado a ousadias, mas que aqui se limitou a um exercício caricato sobre a fenomenologia do espetáculo cinematográfico. Entre a tela e a plateia de um velho cinema de Guimarães, um apresentador discorre acerca dos efeitos do cinema sobre o espectador e as grandes transformações nessa relação ao longo da história. Desde os homens da caverna, por sinal. Com humor claudicante, o curta Cinesapiens derrapa num uso repetitivo da tridimensionalidade, explorando principalmente os braços e mãos dos atores estendidos na direção do público. Pêra viu o 3D como um objeto de chacota.

Por fim, Os Três Desastres traz mais uma colagem do venerando Jean-Luc Godard, um pouco na linha do seu História(s) do Cinema. Como sempre entre a anedota intelectual e a máxima filosófica, ele trata a tridimensionalidade como algo inerente ao cinema desde sempre. É claro que não se importa muito com o 3D em si, nem muito menos com Guimarães. Seu material são os arquivos: cenas de filmes 2D que exploravam as perspectivas; cenas 2D reformatadas para um falso 3D e trechos de filmes recentes em 3D mesmo. No áudio, quase todo com sua voz, ele rumina ideias provocativas sobre o acaso, o destino da humanidade e a enrascada em que teríamos caído com a “ditadura” do digital.

O virtuosismo estético de Greenaway, a veia farsesca de Pêra e a ironia militante de Godard estão longe de formar um conjunto harmonioso, mas falam bastante das características de cada diretor e deixam um comentário polivalente sobre o uso da tecnologia. Se me perguntarem a conexão entre a vetusta Guimarães, berço de Portugal, e essa encomenda exótica, eu diria que é a ênfase no contraste entre o passado remoto e o contemporâneo de ponta. Mas será que isso basta?

O filme está em cartaz no Instituto Moreira Salles

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