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PINTOU NO CCBB

30.01.2004
Por Carlos Alberto Mattos
FLAGRANTES DE UM DIÁLOGO

Uma antiga anedota chinesa conta que o Imperador Suang Sung pediu ao pintor Li Chin Chi que decorasse as cortinas do seu quarto. O pintor concebeu uma paisagem com montanhas e uma cascata. Alguns dias mais tarde, o imperador mandou prender Li Chin Chi porque o ruído da queda d’água o impedia de dormir. A imaginação do soberano havia acrescentado à pintura uma espécie de “efeito cinema”, agregando-lhe som e movimento.



Desde que surgiu, o cinema estabeleceu com a pintura uma relação de mão dupla. Se foi naturalmente influenciado pelas artes visuais que o precederam historicamente, o cinema também influenciou os rumos da pintura. Há um tanto de cinema no cubismo, no futurismo e nos vários “ismos” que introduziram a pintura moderna, sem falar no advento da videoarte e das instalações que ainda hoje dominam a arte contemporânea. A febre de velocidade e a multiplicação dos meios eletrônicos só tem propiciado uma crescente aproximação entre os dois campos. Se vivesse nos dias atuais, Suang Sung teria ainda mais motivos para não dormir direito.



Há poucos meses, uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil tematizou o efeito cinema na arte contemporânea. A presente mostra pode ser vista como o seu reverso. Temos aqui o “efeito artes plásticas” no cinema e no vídeo. Flagrantes distintos de um diálogo entre artes irmãs – ou mãe e filha, como querem alguns.



Os filmes biográficos sobre Rembrandt e Modigliani exemplificam um filão sobejamente explorado do cinema comercial, que institui a vida conturbada de pintores célebres como libelo pela glorificação da arte, em oposição à mediocridade do mundo burguês. A reprodução mimética de telas pelos recursos do cinema é servida como um trunfo de qualidade, um certificado de nobres intenções. Fica interessante confrontar essa prática com os tableaux-vivants encenados por Jerzy, o cineasta-personagem do Passion de Godard. Por mais que ele se esmere na recriação de quadros de Goya, Delacroix etc, seu esforço é constantemente sabotado pelas dificuldades da produção cinematográfica, a luta de classes e as políticas do amor.



As vanguardas históricas estão bem representadas por Heaven and Earth Magic, cujo título já sinaliza o caráter alquímico da criação do pouco divulgado Harry Smith. Cineasta, lingüista, atropólogo e musicista que, no entanto, se descrevia como pintor, Smith manipula colagens animadas nesse clássico do cinema experimental, sem perder de vista uma relação tardia com o surrealismo.



Na área do ensaio crítico situa-se o Guernica de Alain Resnais, onde a memória histórica se reatualiza entre o fato, a tela e o filme. Já em Palavras no Atelier, de Arthur Omar, pintura e cinema conversam literalmente: o foco se desloca da obra para a fala de Eduardo Sued, ali identificando uma certa pictorialidade verbal.



A revisão analítica ou afetiva da personalidade do artista perpassa grande número de documentários brasileiros, representados na mostra por títulos como O Pintor, de Joel Pizzini (Iberê Camargo), O Prisioneiro da Passagem, de Hugo Denizart (Arthur Bispo do Rosário), O Aleijadinho, de Joaquim Pedro de Andrade, Krajcberg, o Poeta dos Vestígios, de Walter Salles, e Guignard, de Olívio Tavares de Araújo. O cinema aqui se comporta como ferramenta organizadora de cultura. Recolhe fragmentos e os arranja num discurso disciplinado – mesmo que o material recolhido resista a interpretações unívocas, como são os casos da obra de Bispo do Rosário ou da fase mais negra de Iberê.



Apesar de aparentados e muitas vezes interpenetrados, cinema e artes plásticas guardam entre si um abismo em matéria de linguagem. Na pintura, o som e o movimento só podem ser vivenciados pelo inconsciente, como fazia o imperador chinês. As elipses temporais são ainda mais improváveis na representação pictórica. O cinema, de seu lado, trabalha no rumo da imaterialidade, da virtualidade. Não ocupa espaço, como o menor dos quadros ou a mais ínfima das esculturas. Existem, portanto, diferenças incalculáveis no que diz respeito ao gesto criador entre o artista plástico e o cineasta. Mas, ainda aí, algumas pontes têm sido lançadas sobre o vácuo.



Os trabalhos da série RioArte Vídeo/Arte Contemporânea, realizados nas décadas de 1980 e 1990, perseguiam esse objetivo com uma volúpia admirável. Artistas e videastas, formados em duplas, investiam sua inquietação em operações colaborativas, visando o encontro de linguagens. Obras antológicas resultaram desse processo, como O Nervo de Prata (Arthur Omar-Tunga), Lygiapape (Paula Gaitán-Lygia Pape) e Apaga-te Sésamo (Miguel Rio Branco-Waltércio Caldas). Ou ainda o comovente Com o Oceano Inteiro para Nadar, em que Karen Harley estabelece um tipo de cooperação póstuma com o artista Leonilson.



Mário Carneiro, autor de dois vídeos da série, é o tipo de autor que se constitui, ele próprio, num elo entre o cinema e a pintura. David Lynch, Peter Greenaway, Raul Ruiz, Jos Stelling e Arthur Omar formam também entre os cineastas-pintores-desenhistas que transferem sua compreensão do fenômeno plástico para a escrita da luz e as formas cambiantes do cinema. Num extremo dessa transferência entre mídias, o mestre canadense da animação Norman MacLaren realizou filmes diretamente pintados sobre a película, os quais integram a seleção aqui apresentada na Sessão Criança do fim de semana.



Quando pintores e cineastas se dispõem à colaboração no set de filmagem, o resultado pode atingir o nível sublime de Le Mystère Picasso ou O Sol do Marmeleiro. No primeiro, Henri-Georges Clouzot criou dispositivos capazes de nos colocar “dentro” do processo criativo de Picasso. Olho no olho do pintor, ajustado ao eixo do pincel, o espectador pode testemunhar o making of da mais absoluta genialidade. Já em O Sol do Marmeleiro, Victor Erice nos oferece o tempo necessário para acompanhar a lenta gestação de um único quadro do pintor Antonio López García. Em ambos os casos, o cinema amplia nossa capacidade de percepção e compreensão da criação plástica, ao passo em que se constituem, os próprios filmes, em espetáculos apaixonantes.



A investigação ficcional do cinema a respeito da pintura atingiu um de seus pontos mais altos em A Bela Intrigante, o memorável afresco psicológico de Jacques Rivette. Ao dramatizar a relação entre um pintor e sua modelo, o cinema flagra a dinâmica interior que anima o ato plástico.



Pelos diversos caminhos mapeados nesta mostra, podemos alcançar a emoção do imperador Suang Sung diante da cachoeira de Li Chin Chi.





Publicado originalmente no folheto da mostra Pintando no Cinema

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