Críticas


PLANETA DOS MACACOS – O CONFRONTO

De: MATT REEVES
Com: ANDY SERKIS, JASON CLARKE, GARY OLDMAN, KERI RUSSELL
25.07.2014
Por Gabriel Papaléo
Uma reflexão sobre o que é ser racional.

O clássico Planeta dos Macacos, ficção-científica de 1968, se utilizava de questionamentos sobre a evolução da humanidade para enriquecer sua premissa essencialmente kitsch. O filme de Franklin J. Schaffner trazia Charlton Heston como um herói que tinha de lidar com as responsabilidades que uma geração de erros causou à espécie – e o confronto com os primatas que surgiam tão evoluídos era mais ideológico do que físico, fiel ao caráter de cautionary tale que ali residia. A franquia do século passado, após sequências que pouco tinham da provocação do original, entrou na leva de reboots e prelúdios que tomou o cinema hollywoodiano recentemente de forma vitoriosa. O equilibrado Planeta dos Macacos – A Origem (2011) mantinha a ação que marcou os filmes mais antigos, mas se espelhava no filme de Schaffner para discutir o que nos fazia mais desenvolvidos como espécie.

Planeta dos Macacos – O Confronto, sequência do filme de 2011, aprimora a discussão ao desenvolver o símio César de forma ainda mais aprofundada do que o bem-sucedido anterior já havia feito, atribuindo-lhe características intelectuais de seres humanos, inclusive a curiosidade, colocando-as em conflito direto com a natureza animalesca da espécie – o que rende uma narrativa mais completa, com mais diversidade temática e em arcos dramáticos.

Um panorama conciso das causas de uma gripe epidêmica que destruiu a maior parte dos humanos ocupa os minutos iniciais da projeção. A urgência da devastação constrói o universo com economia, preparando o terreno para os primeiros 15 minutos do longa. Quase sem diálogos, boa parte do primeiro ato deixa que os atos dos personagens falem por si só, concentrando-se no cotidiano da sociedade construída pelos macacos liderados por César. O diretor Matt Reeves é bastante preciso ao capturar pequenos gestos sociais tipicamente humanos, mas claramente feito por animais, tal como a dificuldade em aprender a escrita, as confraternizações, o estilo arquitetônico improvisado das tendas e, principalmente, o início de evolução de cada um dos macacos do grupo após o crescimento do líder.

Com tal iniciativa de, primeiramente, ambientar o espectador na sociedade símia, os roteiristas Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver não só criam laços afetivos com os principais personagens dali (o orangotango Maurice é a adição mais inspirada neste filme), como preparam com parcimônia o primeiro encontro com a sociedade humana. Este primeiro contato causa estranheza, elemento indispensável para fazer sentir os anos de falta de convivência entre as espécies. O diretor Reeves filma o encontro com tensão velada, construída por enquadramentos e excelente design de som, o que só favorece a ideia de distanciamento ideológico e social que acometeu as duas partes.

O cuidadoso pano de fundo para isso é uma San Francisco abandonada, tomada por plantas e animais silvestres, algo que lembra muito o jogo The Last of Us. A desolação de uma sociedade entregue às próprias forças limitadas pelo tempo e espaço é sentida pela escala que Reeves impõe aos dois principais cenários de conflito, mesmo que mantenha o impacto dos eventos. Muito se deve aos roteiristas que escolheram tomar como principal obstáculo narrativo uma represa, reduzindo com este recurso o setting para representá-lo como um microcosmo, uma representação menor do que se aplica ao mundo inteiro dali. A iluminação essencialmente natural confere uma atmosfera sombria ao filme, realçada pela ótima fotografia de Michael Seresin, que trabalha com o design de produção para quase sufocar a sociedade humana - tão dependente dos agora escassos recursos tecnológicos. Não por acaso, muito dos conflitos do segundo ato do filme, intermediados por cenas em espaço fechados ou abandonados, lembram a opressão do cinema de John Carpenter.

A sacada de abordar a represa, inclusive, é o primeiro sinal da discussão moral acerca dos seres humanos e símios de O Confronto. Ao usar um conflito essencialmente humano ao longo dos séculos, a disputa territorial visando desenvolvimento tecnológico pela exploração da natureza, Reeves e seus roteiristas conseguem introduzir a relação complexa de humanos e macacos. César é questionado por seus pares com frequência, o que rende um surpreendente antagonismo no seio daquela sociedade. A curiosidade que o olhar do macaco transmite durante as reuniões com as pessoas é essencial para o arco do personagem, que regressa a memórias de quando se encantava com o poder do intelecto e do conhecimento dos humanos até ser traído por eles. A ganância e a sede de poder são os vilões desde o filme original, e aqui não será diferente.

Conforme a “humanidade” vai sendo absorvida pela mente dos símios, as diferenças principais entre as espécies são contextualizadas. Ao final, César entra em conflito com a própria família em prol de um ideal, e também é afetado pela forma de pensar dos humanos – como o seu parceiro Koba, que ganha tridimensionalidade neste filme, representando a consequência literal do efeito que os humanos podem causar em semelhantes quando há interesses envolvidos, experimentando até o conceito de vingança (a imagem de pessoas presas como macacos de laboratório é poderosa). E é exatamente por interesses essencialmente humanos que há conflito na sociedade desenvolvida por César.

Reeves mantém a estética apurada estabelecida pelo diretor Rupert Wyatt no filme anterior e cria com elegância tanto as cenas dramáticas quanto as elaboradas sequências de ação. Mesmo que o clímax seja desnecessariamente grandioso, causando uma certa ruptura diante da escala de destruição, que era até então mais psicológica do que física, Reeves descobre instantes poéticos em meio ao caos, como a brilhante opção de manter a câmera fixa no tanque durante a invasão – o que, em parceria com a trilha à moda antiga do genial Michael Giacchino, favorece o impacto emocional da incursão.

Apesar da visão amarga que tem dos humanos desse futuro, os roteiristas novamente mantêm os pequenos elos da confiança de César com as pessoas, tal como com Malcolm e seu filho - que substituem o cientista vivido por James Franco no filme anterior. O filho vivido por Kodi Smith-Phee cria parceria com Maurice através do hábito da leitura ao partilhar a graphic novel "Black Hole" – uma excepcional sacada dos realizadores, já que também é uma obra sobre epidemia; no caso, uma alegoria sobre AIDS. A relação de cumplicidade de Malcolm com o líder dos símios também é tocante, rendendo cenas inspiradas, como o cumprimento apenas pelo toque dos rostos dos dois personagens.

No entanto, Reeves e os escritores vão além ao construir o excelente personagem vivido pelo sempre impecável Gary Oldman. Ao humanizá-lo por pequenos fatores (a retórica apaixonada, a lembrança da família, a racionalidade em busca de recuperar o que foi perdido pela espécie), não só concebem um tipo crível e digno de empatia (ainda que o desfecho seja preguiçoso para com ele), como criam uma nemesis à altura de César.

E talvez este seja o melhor elemento discutido em Planeta dos Macacos – O Confronto, e que o faz ser um passo além do já competente filme anterior. Em meio à carpintaria dramática e os confrontos inter e intra-espécies, não é sobre heróis, vilões e feitos trágicos, mas sim sobre como o peso das circunstâncias atribui responsabilidade àqueles que não merecem ser classificados com a nobreza que lhes foi concedida. Não discutindo sobre ser humano ou macaco, Matt Reeves e roteiristas colhem louros ao refletir sobre o que é ser racional.

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