Críticas


THE ROVER – A CAÇADA

De: DAVID MICHÔD
Com: GUT PEARCE, ROBERT PATTINSON, SCOTT MCnAIRY.
07.08.2014
Por Gabriel Papaléo
Curiosa fusão dos dois espectros criando o dilema moral do faroeste em meio à desesperança da terra de ninguém no futuro.

A opressão do deserto é elemento crucial no estabelecimento do imaginário de dois gêneros bem distintos: o faroeste e o cinema de pós-apocalipse. As terras australianas, bem variadas entre a natureza selvagem e a cidade desenvolvida, contam com um deserto propício a este uso. Os veículos potentes e o cenário distópico são palco para a violência dos homens em Mad Max (1979), ainda que em chave estilizada. A Proposta, o primeiro filme do diretor John Hillcoat, de 2005, usou os contraluzes do outback australiano para contar uma historia de vingança e família em que as decisões morais eram tomadas a partir da forma pela qual o herói manejava sua presença em meio à batalha. Neste novo filme de David Michôd, The Rover – A Caçada, encontramos uma curiosa fusão dos dois espectros, criando o dilema moral do faroeste em meio à desesperança da terra de ninguém no futuro.

O homem sem nome da vez é vivido por Guy Pearce, com pano de fundo dramático mais representado pelas roupas deploráveis e cabelos desgrenhados do que por exposição textual. A presença de cena do ator toma o escopo do diretor Michôd aos poucos, ameaçando através de um olhar que contém o impulso de recorrer à violência para devolver sentido aos acontecimentos. A cobrança gradual por julgamento moral é sentida na tensão irradiada pelo ator a cada troca de palavras, no embarque consciente ao inferno que o personagem atravessa para buscar seu carro roubado por arruaceiros.

Contextualizar o universo com economia de detalhes geográficos ou políticos torna-se fundamental para estabelecer a atemporalidade do que se passa. A informação vale bastante, enquanto o dinheiro continua a gerar conflitos, mesmo sem valor completo. São tempos sem lei, sem estado, em que a vontade do mais forte prevalece diante de um ambiente que nada faz além de desgastar.

O carro do protagonista se aproxima do ladrão logo no início com uma visão duelista de faroeste, câmera em plano americano na lanterna do veículo, como se a vontade de um frente ao outro fosse a ordem natural das coisas. A violência surge desavisada porque mesmo no pós-apocalipse há um acordo velado entre a espécie, seja movido pelos estágios sociais do passado, seja pela tensão e autopreservação do presente. Não por acaso, a morte do traficante de armas soa tão chocante e tão compreensível: é abominável recorrer àquele meio, mas as circunstâncias fazem parecer plausível pensar na opção.

Acontecimentos como o das cruzes no deserto e a ausência de Deus nos furiosos diálogos destinados a Guy Pearce são características fundamentais para o mundo ao redor servir mais como palco para os dilemas e menos como fator principal da trama. The Rover (título original) soa tão atmosférico e implacável para com a jornada dos personagens justamente por usar conceitos consagrados do fim do mundo para contextualizar o conflito de quem ali habita. Pequenos arcos dramáticos surgem para o protagonista como se fossem contato e teste moral diante do mundo despedaçado. A autoridade da mãe numa casa abandonada danifica a liberdade dos diversos que com ela vivem, mas não desperta nada além de ódio contido do personagem. Da mesma forma, a doutora é usada apenas para as necessidades da jornada, e largada para lidar sozinha com os efeitos do caos; porque é assim que foi e que nada veio ou virá para mudar.

Quando entra em contato com a figura mais alheia ao arco dramático, o irmão do ladrão – personagem vivido por um cada vez mais intenso e multifacetado Robert Pattinson –, o protagonista sente-se como porta-voz não-oficial das regras daquele lugar para ‘Rey’, o personagem de Pattinson. Abandonado para morrer em circunstâncias não muito claras, Rey é praticamente um novato ali, tentando assimilar o sentido dos fatos sem que isto o impeça de prosseguir no caminho; quase um primeiro contato com tais valores, a ser desbravado junto ao protagonista. Sendo assim, o personagem passa pela opressão metafórica da autoridade (no ótimo tiroteio no hotel, onde é atacado por um “militar”) sem que abandone a inocência de recordar um passado mais terno (como na cena da cantoria). Os ecos do dilema de irmãos do brilhante A Proposta retornam no contato literal que o protagonista e ‘Rey’ terão com o confronto, com a concretização do faroeste duelista. São decisões tomadas com profundo caráter moral (o protagonista hesita claramente antes de partir para o clímax), no cano ainda quente da pistola, onde a crueldade acontece por mais omissão física do que através de uma problematização racional do tema. Como no filme de 2005, Pearce deixa claro: “a única coisa que importa é que eu estou aqui”.

Talvez a empatia gerada por um anti-herói tão desprezível como este advenha do olhar estressado tudo-ou-nada de Pearce, sendo o sinal necessário para a identificação com a insanidade que a violência gerou através dos séculos. O arrependimento é contínuo, mas oprimido pelo selvagem – como o deserto oprime o Homem. É para expulsar demônios e enterrar o passado que o carro (ou a ideia de confronto?) continua sendo perseguido.

O Homem é condenado então a aguentar o peso da historia, o peso das decisões tomadas quando a sociedade não era caótica. A violência se repete como um lastro de contato com o mundo, e o castigo do homem sem nome é agir (e presenciar) no ciclo de uma responsabilidade com a selvageria que impossibilita qualquer tipo de consequência pelos atos – mesmo que as consequências sejam cobradas por ele mesmo.

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