Críticas


CONFIDENCE – O GOLPE PERFEITO

De: JAMES FOLEY
Com: EDWARD BURNS, RACHEL WEISZ, DUSTIN HOFFMAN, ANDY GARCIA
27.02.2004
Por João Mattos
ARREMEDO DE NOIR

Confidence- O Golpe Perfeito, de James Foley, tem um mote típico de noir de todas as idades, o do complexo crime supostamente perfeito que detona uma série de conflitos, com os toques de contemporaneidade inerentes a mudanças de costumes da década de 40 (era do noir original) para cá, e é narrado em primeira pessoa com um cara contando todas as coisa ruins que aconteceram com ele, no que é um dos paradigmas do noir e do neo-noir (desde clássicos como Pacto de Sangue, de 1944) .



Um bom noir se estrutura sobre duas vertentes: a trágica, no sentido puro e pleno da palavra, de acontecimentos horríveis que já parecem inscritos pelos deuses no destino dos personagens, sempre complexos e atormentados. E da trama tortuosa, cheia de reviravoltas e surpresas, mesmo que às vezes obscuras, mas de notável capacidade de cativar o espectador (reza a lenda que o diretor Howards Hawks teria dito uma vez que nem ele mesmo entendia todos os meandros de seu clássico À Beira do Abismo, de 1946). Alguns neo-noir trazem uma terceira coisa, que uma noção de paródia (suave), em relação à mitologia do subgênero e a outros assuntos, muitas vezes sábias, em outras, cretinas.



Confidence falha nos três níveis: nem traz uma paródia embutida (usa os clichês de maneira cômoda), tem personagens que nunca se elevam à condição de joguetes tipificados, o que até não seria de todo mau, mas pecado mortal, são usados sem o menor charme (Rachel Weisz até que faz o possível para enriquecer sua mulher fatal), o que faz com que pouco nos interessemos por eles, e sua mecânica de jogo (os detalhes da trama) é maneirista demais, seus desvãos também não arrebatam. Sem grandes personagens e sem trama cativante, e sobretudo sem um charme redentor que polisse esses graves defeitos, a obviedade de Confidence acaba por ser ainda mais chata. Coadjuvantes como Andy Garcia (como oficial de justiça) e o soberbo Paul Giammatti (Gordo, o bandido de cavanhaque), um dos melhores atores em atividade em Hollywood, também são mal utilizados.



Restam alguns momentos formalistas de Foley (tipo plongées na batida no aeroporto), que numa carreira de altos e baixos, assinou pelo menos uma obra-prima Caminhos Violentos (1986), que trazia umas das mais perfeitas escalações de elenco do cinema (o então jovem Sean Penn, e Christopher Walken, como filho e pai). O cineasta trabalha pela quinta vez com o diretor de fotografia espanhol Juan Ruiz Anchía, e até há uma semelhança de certas cenas e planos com outras parcerias da dupla, tal como a cena do restaurante em que Garcia vai dar uma dura em dois policiais corruptos, e que traz uma iluminação muito parecida com a de diversos momentos de Sucesso a Qualquer Preço (1993). Eles conseguem criar uma boa cena, que é o instante em que a bandidagem enreda o funcionário parvo para o golpe (sem que ele saiba que está sendo enganado). Mesmo que sofra da pujança dramática do todo, a cena tem decupagem perfeita, vai num crescendo interessante trazendo o jogo de olhares entre Rachel e a vítima até trazer uma inesperada manifestação de um participante da mesa. Muito pouco para uma baita decepção.



# CONFIDENCE – O GOLPE PERFEITO (Confidence)

EUA, 2003

Direção: JAMES FOLEY

Roteiro: DOUG JUNG

Produção: MARC BUTTAN, MICHAEL BURNS

Fotografia: JUAN RUIZ ANCHIA

Montagem: STUART LEVY

Música: CHRISTOPHE BECK

Elenco: EDWARD BURNS, RACHEL WEISZ, DUSTIN HOFFMAN, ANDY GARCIA, PAUL GIAMATTI, LUIZ GUZMAN, DONAL LOGUE, ROBERT FORSTER, BRIAN VAN HOLT

Duração: 97 min

site: http://www.confidencethemovie.com/main.htm

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