Críticas


O JUIZ

De: DAVID DOBKIN
Com: ROBERT DOWNEY JR., ROBERT DUVALL, VERA FARMIGA
17.10.2014
Por Octavio Caruso
Um indefensável retalho de clichês

Em teoria parecia ótimo, uma trama que poderia conduzir a questionamentos profundos sobre o relacionamento familiar e o caráter humano. Um advogado bon vivant e de ética questionável retorna à cidadezinha onde nasceu ao receber a notícia da morte de sua mãe. Lá, ele enfrenta seu pai, outrora um respeitado juiz, bastião moral, que se vê no centro de uma acusação de assassinato, precisando então da ajuda profissional do filho que ele despreza.

É uma pena que o roteiro escrito a partir de uma ideia do diretor, em parceria com Bill Dubuque e Nick Schenk, responsável por “Gran Torino”, aborde uma quantidade considerável de temas, com uma narrativa medianamente agradável em sua longa duração, mas nunca dedicando tempo suficiente para o essencial: os personagens. Samantha, interpretada por Vera Farmiga, por exemplo, existe apenas para suprir a necessidade hollywoodiana de um relacionamento amoroso, sem nenhuma personalidade e com ações calculadas. Duvall e Downey Jr. conseguem driblar a mediocridade com o peso de suas personas carismáticas, ajudando a impedir que as cenas mais manipuladoras virassem material de um especial televisivo de quinta categoria.

Não há sequer uma linha de diálogo que soe verdadeiramente orgânica, fazendo parecer que estamos diante de um desfile de conflitos já resolvidos inúmeras vezes em outras produções, contando com a possibilidade do espectador ter vivido em uma ilha durante toda sua vida. A opção por uma trilha intrusiva, composta por Thomas Newman, que sem nenhuma sutileza tenta potencializar momentos vazios, faz parecer que estamos assistindo o trabalho de conclusão de curso de um estudante em direção cheio de boas intenções, mas ainda despreparado para o serviço. Dobkin possui um currículo fraco, com projetos terríveis como “Eu Queria Ter a Sua Vida” e o superestimado “Penetras Bons de Bico”, mas merece crédito por tentar comandar algo mais emocionalmente maduro, equilibrando bem o drama e o humor.

Como nota de rodapé, sinto falta do ator desafiador que Downey Jr. era nos tempos de “Chaplin”, sempre disposto a surpreender o público. Atualmente, especialmente nessa obra, ele apenas executa uma variação preguiçosa do tipo que o trouxe de volta à fama em “Homem de Ferro”. É o que boa parte do público, aqueles que compartilham dessa preguiça intelectual, busca encontrar ao comprar o ingresso, mas não é uma atitude que considero artisticamente interessante.

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