Críticas


VALENTÍN

De: ALEJANDRO AGRESTI
Com: RODRIGO NOYA, CARMEN MAURA, JULIETA CARDINALI, JEAN PIERRE NOHER, ALEJANDRO AGRESTI
19.05.2004
Por Carlos Alberto Mattos
EM BUSCA DE UMA MÃE LOURA

Alejandro Agresti vinha correndo por fora na atual retomada do cinema argentino. Trabalha com capitais europeus e costumava fazer um cinema alternativo àquele de comunicação mais fácil que lota cinemas (Nove Rainhas,O Filho da Noiva, Kamchatka etc). Mas com Valentín ele parece capitular ao melodrama de larga aceitação.



Na verdade, só parece.



Valentín tem ingredientes infalíveis: um garoto altamente perceptivo com uma carência familiar básica; uma avó meio caricata, defendida pelo carisma de Carmen Maura; um roteiro simples e linear, que apresenta o problema e empreende uma caminhada até a solução quase mágica; uma esperta combinação de humor e sentimentalismo, embebida em música comovente. Mas agora vem a boa notícia: Agresti maneja tudo isso com uma sensibilidade superior e evita cair em fórmulas baratas.



O filme foi o mais premiado pela associação de críticos argentinos em 2002: ganhou sete Condor de Prata (melhor filme, diretor, roteiro original, revelação masculina – o menino Rodrigo Noya –, música, direção de arte e montagem).



A história é autobiográfica, baseada em supostas memórias da infância do diretor. Ele escalou a si próprio no papel do pai, um canalha anti-semita que só aparece na vida do pequeno Valentín para repisar em suas feridas. É a vingança de Agresti contra o seu pai. Seria difícil, fora da ficção, encontrar um menino com tamanha capacidade de observação e reflexão, além de interesse tão amplo por tantas coisas como Valentín. Em fins dos anos 1960, ele quer ser astronauta, aprende piano, tece considerações sobre parentes e conhecidos... e sobretudo dedica-se com fervor a paquerar uma mãe – de preferência uma loura – para ocupar o lugar da sua, ausente e por quem se sente rejeitado.



O expediente da narração em primeira pessoa é engenhoso. Ouvimos as considerações de Valentín como se viessem de uma consciência exterior (a razão, compreenderemos no final). Isso, ao mesmo tempo que explica a elaboração às vezes exagerada das idéias, também funciona como uma chantagem sentimental a que não é muito fácil resistir.



Assim caminha o filme: sentimos que estamos sendo docemente manipulados, mas a simplicidade do estilo e a precisão da direção nos conduzem com firmeza suave para o rumo pretendido. Rodrigo Noya foge ao típico menino-bombom desse tipo de filme: é vesgo, um pouco desengonçado e se expressa tão bem pelos silêncios e olhares perplexos quanto pelas palavras.



Uma cena estranha ao plot central chama a atenção do espectador latino-americano hoje: Valentín assiste ao sermão de um padre no dia seguinte ao do assassinato de Che Guevara na Bolívia. É um padre progressista, que ousa fazer o elogio da opção de Che pelo bem do povo em detrimento de um destino individual confortável e burguês. Aqui se estabelece um diálogo com Diários de Motocicleta, ora em cartaz nos cinemas e na berlinda das opiniões especializadas por causa de uma suposta angulação cristã do filme de Walter Salles. Ora, os paralelos entre Che e Cristo não são uma criação deste ou daquele filme, nem se limitam à mera comparação da foto post-mortem do guerrilheiro com o quadro do Cristo morto de Andrea Mantegna.



Trata-se antes de um tema perturbador, um curto-circuito nas relações entre ideologia política e religião na América Latina. A foto de Che na parede é um contraponto aos tradicionais quadros do Coração de Jesus. Ambos são personalidades que deixaram a História para transformar-se em objetos de culto. Em muitos casos, perderam o sentido original de sua “mensagem” para sobreviver somente na esfera do mito afetivo. Talvez não sejam tão inconciliáveis a ponto de a menção do Che fazer os fiéis abandonarem a igreja (como acontece no filme de Agresti) ou a lembrança de Cristo indignar os fiéis do racionalismo político.





# VALENTÍN

Argentina, Espanha, Holanda, França, Itália, 2002

Direção e roteiro: ALEJANDRO AGRESTI

Fotografia: JOSÉ LUIS CAJARAVILLE

Montagem: ALEJANDRO BRODERSOHN

Música: PAUL M. VAN BRUGGEN

Direção de arte: FLORIS VOS

Elenco: RODRIGO NOYA, CARMEN MAURA, JULIETA CARDINALI, JEAN PIERRE NOHER, ALEJANDRO AGRESTI, MEX URTIZBEREA

Duração: 86 minutos

Site oficial: Valentín

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