Críticas


ANTES DE DORMIR

De: ROWAN JOFFE
Com: NICOLE KIDMAN, COLIN FIRTH, MARK STRONG
23.01.2015
Por Octavio Caruso
O resultado seria melhor, caso o diretor não sofresse da mesma patologia que a protagonista.

O cinema adora trabalhar o tema da perda de memória. O problema é que o roteirista/diretor Rowan Joffe parece sofrer da mesma patologia de sua protagonista, esquecendo subtramas e deixando no caminho várias pontas soltas, conduzindo a um desfecho narrativamente incoerente e intelectualmente insatisfatório, um anticlímax desnecessariamente meloso. As tentativas de manipular o público em direções erradas, elemento importante em obras de mistério, falham essencialmente por serem fundamentadas em atitudes totalmente inverossímeis, inconsistentes. Uma experiência estranhamente misógina, ainda que adaptado do livro de uma autora, que, numa leitura mais profunda, de alguém muito interessado em filosofar sobre a letargia, trabalha metaforicamente a odisséia traumática da protagonista como um torto julgamento moral, uma punição para o adultério.

Com execução simplória de especial para televisão e soluções que caberiam melhor em uma novela, é impressionante tentar compreender a razão que fez Nicole Kidman, Colin Firth e Mark Strong assinarem seus contratos. A trama prefere a repetição, durante o segundo ato, mostrando ad nauseam o marido explicando para a esposa sua situação, ao invés de se aprofundar no desenvolvimento dos personagens, solidificando as motivações, intensificando o desespero de alguém que esquece tudo a cada despertar. Algumas questões interessantes, como a reflexão comportamental sobre as atitudes que tomaríamos com alguém, caso soubéssemos que a pessoa iria se esquecer de tudo no dia seguinte, as decisões que nos mantém íntegros e corretos, são esquecidas em prol de cenas formulaicas de sustos e outras bobagens.

Com um diretor mais ousado, interessado em trabalhar as metáforas de forma visual, poderia ter resultado em um produto melhor. O amadorismo de Joffe, sem elegância alguma, destruiu qualquer potencialidade que havia na adaptação da obra da autora S.J. Watson.

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