Críticas


O CRÍTICO

De: HERNÁN GUERSCHUNY
Com: RAFAEL SPREGLBURD, DOLORES FONZI, BLANCA LEWIN
25.01.2015
Por Nelson Hoineff
Poderia ser mais incisivo, consistente, Mas é uma comédia inteligente com olhar atento sobre o ser humano.

Minha primeira surpresa é perceber que um filme sobe um crítico – e sobre a crítica – demorara tanto para aparecer num site de críticos. Isso pode ser um problema para um crítico-psicanalista, mas sugere também que esta prosaica comédia sobre um crítico que, na sua essência, está desencantado com o mundo e diz a verdade até ser atingido por um raio do mundo exterior, incomoda muito mais do que a princípio se imagina.

O Crítico é uma comédia que diz muito sobre essa atividade, promovendo basicamente um encantador mergulho no meio desses profissionais que, geralmente entediados, reúnem-se para ter em conjunto a experiência do estar superior – e são sim capazes de dissertar igualmente sobre o que conhecem e sobre o que nunca ouviram falar. Faz parte do ritual estar de mau humor. Ter pressa de não chegar a lugar algum. E não se importar com os estragos que uma simples resenha subjetiva possa provocar tanto aos leitores quanto aos autores das obras que servem de inspiração aos próprios críticos, para não falar das milhares de possibilidades de leitura de uma obra desperdiçadas pelo simples desinteresse de conhece-las. Nenhuma delas interessa, porque o crítico é obviamente superior. Não poderia se dar ao trabalho, ou perder seu precioso tempo, em fazer uma crítica de seu próprio repertório – de cinema, de história ou de vida.

Victor Tellez (Rafael Spregelburd) é um crítico respeitado, que está em crise familiar e existencial. Esse, o da crise, é um de seus mundos. O outro é o dos companheiros que invariavelmente estão nas sessões para a imprensa que frequenta. Nas mesmas posições, falando as mesmas coisas, descontentes com tudo, forjando idênticas piadas. Seu grupo, para quem frequenta grupos de críticos, é incrivelmente verdadeiro. Parecem todos fotografados em Berlim. E sobre Berlim se assenta a melhor piada do filme, quando todos querem saber algo sobre o filme argentino que estará em Berlim: “se está em Berlim, é uma merda”.

A mudança dos paradigmas de Tellez (e de seus textos) vem quando sua vida pessoal começa a mudar. Isso é banal e irrelevante. Até ali, no entanto, Tellez e seus companheiros protagonizam uma bela radiografia da crítica de cinema e de seus protagonistas. Ele só consegue pensar em francês e suas referências, seja do que forem, são da nouvelle-vague; no âmbito do real, seu apartamento está sempre invadido pelo insuportável som das obras realizadas pelo vizinho.

Desprezar o sonho, ignorar a realidade, ali incluindo a ação tantas vezes nefasta de sua leviandade. “Levo cinco anos para fazer um filme, você o destrói em cinco minutos”, diz o cineasta que vai se tornar um obcecado, mas que repete o clichê que críticos costumam ouvir pulverizado pela repetição.

O Crítico não fala sobre o impacto da crítica sobre os filmes, mas do impacto da crítica sobre o crítico. Poderia ir mais longe, ser mais incisivo, consistente, tudo isso. Mas é uma comédia argentina, inteligente e com o olhar atento sobre o ser humano. Seu protagonista, que pensa em francês, anda com o jornal debaixo do braço e discute com os pares suas idiossincrasias na mesa de um bar. Diz que o cinema acabou, que a indústria é feita para vender pipoca e que a grande utilidade em localizar as saídas de emergência é para fugir dos filmes. Pensando bem, não está tão errado assim...

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