Críticas


RESPIRO

De: EMANUELE CRIALESE
Com: VALERIA GOLINO, VINCENZO AMATO, FRANCESCO CASISA
10.06.2004
Por Carlos Alberto Mattos
ÉDIPO NA SICÍLIA

Quem gosta de cinema italiano não tem tido muitas alegrias por aqui. Em parte devido a limitações da distribuição. Mas principalmente porque os herdeiros de Visconti, Fellini e Monicelli parecem ter perdido a mão no tempero da pasta cinematográfica. Por tudo isso, há razões para festejar a chegada de Respiro, um filme que honra as boas tradições daquela cinematografia sem deixar de ter o seu frescor próprio.



O diretor e roteirista Emanuele Crialese, romano formado nos EUA, já tinha agradado com seu filme de estréia, Once We Were Strangers, simpaticíssima comédia de choques culturais em torno de um imigrante siciliano e um indiano em Nova York. O filme passou como um cometa pelo RioCine Festival de 1998 e foi exibido no Telecine com o título de Estranhos em Nova York. Em Respiro, Crialese remete-se à província mais recôndita possível – a ilhota Lampedusa, ao sudoeste da Sicília.



Lampedusa é um pequeno paraíso agreste fincado no azul incomparável do Mediterrâneo e isolada da distante Europa continental. Localidade de pescadores, machos possessivos, mulheres com sensualidade saindo pelo ladrão, lendas católicas e matilhas de cães raivosos. Tudo isso acaba tomando parte, real e metaforicamente, na história de Grazia (Valeria Golino), jovem mãe de três filhos que não se encaixa no figurino de comportamento do lugar. Seu apego à liberdade é parte loucura, parte irreverência inocente, e a colocará em rota de colisão com o marido e a sociedade local.



Na descrição dos hábitos da ilha, o filme faz uma inspirada conjugação de realismo e poesia. O título remete à fronteira entre esses dois registros, marcada pela linha do mar. Enquanto os instintos se digladiam na superfície pedregosa – as brigas de gangues de garotos, as buscas amorosas ao redor de grutas e falésias –, nas cenas subaquáticas prevalece um lirismo abissal. Entre esses dois pólos, Crialese organiza as várias pontas de seu habilidoso e arejado roteiro.



O núcleo dramático principal é ocupado pela complexa relação edipiana entre Grazia e o filho adolescente, Pasquale (Francesco Casisa). Num universo onde as crianças irremediavelmente seguem os passos dos adultos, Pasquale destaca-se oferecendo adoração e proteção à mãe sensual e um tanto infantil, ao mesmo tempo em que protege a si mesmo das tentações do incesto. O sexo, como a maresia, a tudo permeia, numa rede que sutilmente envolve pais e filhos. O assunto é tratado com grande delicadeza, deixando para o espectador um espaço de observação e reflexão que dificilmente se vê em incursões ao gênero.



A interação entre astros como Golino, o escultor/ator Vincenzo Amato (Pietro, o marido) e atores não profissionais funciona como nos bons momentos do neo-realismo. As crianças são particularmente expressivas, cada qual em seu tom. A beleza natural de Lampedusa nunca resvala em enfoque turístico, servindo sempre como elemento de potencialização dos sentidos em jogo. E o mar onipresente ganha foros de elemento mágico, sem o qual Respiro seria apenas uma história bem contada.



# RESPIRO

Itália/França, 2003

Direção e roteiro: EMANUELE CRIALESE

Fotografia: FABIO ZAMARION

Montagem: DIDIER RANZ

Música: JOHN SURMAN

Elenco: VALERIA GOLINO, VINCENZO AMATO, FRANCESCO CASISA, VERONICA D´AGOSTINO, FILIPPO PUCILLO

Duração: 95 minutos

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