Críticas


DE CORPO E ALMA

De: ROBERT ALTMAN
Com: NEVE CAMPBELL, MALCOM MCDOWELL, JAMES FRANCO
09.06.2004
Por João Mattos
UM ALTMAN INCOMPREENDIDO E APAIXONANTE

Tem pouca história. Não tem história. Falta roteiro. O roteiro é fraco. Altman não está afiado como antes. Ele já fez filmes-painéis muito melhores. Talvez você não tenha lido literalmente essas frases em críticas ou textos sobre o mais recente filme de Robert Altman, De Corpo e Alma, ou mesmo escutado essas exatas palavras em rodas de amigos que gostam de discutir cinema, mas com certeza leu / escutou coisa bem parecida. São essas as reclamações mais comuns contra esta obra, não só no Brasil, como no resto do mundo, já que a fita foi imenso fiasco de público (dentro do que se esperava, claro, de tipo de cinema que não é para massas), de crítica, e decepcionou muitos fãs habituais do diretor.



Essas ressalvas de maneira alguma são incorretas, no sentido que detectam algo que efetivamente está na tela, mas também podem sugerir outras leituras, que longe de demonstrarem ou afirmarem as supostas fraquezas, explicam o que faz o encanto cinematográfico da obra para seus fãs. O mais irônico é que talvez essas qualidades também podem ter surgido do pouco entusiasmo inicial que o diretor teria tido com o projeto quando ele lhe foi apresentado pela atriz principal, argumentista e co-produtora Neve Campbell. A volta atrás permitiu um olhar quase descompromissado e cheio de frescor.



Em primeiro lugar, Altman, especialista em filmes-painéis que dissecam um determinado segmento da sociedade, ao mesmo tempo em que age como sempre traz algo novo. Há uma personagem central clara (a de Neve, Loretta), que faz parte de uma companhia de balé, então o painel desse segmento da sociedade já tem um certo eixo – em geral, nos seus filmes-painéis, o diretor nunca lida com um só personagem central. Essa bailarina tem quase a mesma importância que o diretor da companhia, Albert (feito por Malcom McDowell), que aparece em cena um pouco menos, e muito mais do que o cara com quem ela começará a namorar, Josh (James Franco). Além desses três intérpretes de verdade, temos bailarinos e bailarinas de uma famosa companhia de Chicago, a Jofrett, interpretando o que podemos classificar de alter-egos deles mesmos. A presença desses bailarinos, bem como o fato de que Neve Campbell é, ela mesmo, bailarina de formação, dão ao filme credibilidade no que se refere à realidade observada.



E fornece um bom ponto de partida para destrincharmos o que acontece na trama. O balé procura criar plasticidade arrebatadora em movimentos que necessitam de intensidade excruciante. É uma produção da beleza que vem da dor, não como uma contradição, mas como uma conseqüência natural de uma coisa sobre a outra, e que fascina. Em geral, filmes que tratem de balé ou outro tipo de dança, e mesmo de ofícios artísticos de todos os matizes, procuram traduzir de forma muito literal as dificuldades do fazer arte, tanto os conflitos psicológicos como os do cotidiano. Tais situações e dificuldades existem nesta obra de uma maneira peculiar. Por exemplo, o personagem de McDowell, longe de representar aquela figura usual, meio um mentor distante, meio obstáculo para o artista (num misto de mestre a ser superado com ponto de tensão), funciona como uma espécie de pará-raio das tensões do grupo, cobrando dos bailarinos, e procurando antes de tudo servir à dança, mas sem se sobrepujar aos artistas.



Depois, as dificuldades da carreira dos bailarinos e bailarinas surgem na tela, porém não são explicitadas de forma redundante por não aparecerem nos diálogos e frases com a profusão comum. A personagem de Neve tem um emprego como garçonete, e é provável que seja pela necessidade de uma renda alternativa pela baixa remuneração do balé, mas cadê a(s) cena(s) e o(s) diálogo(s) que lidam com isso, ou melhor, deixam claro que ela tem esse emprego por essa razão, apenas suposta pela platéia? A personagem de Neve mora do lado de uma linha de trem superbarulhenta, e cadê o diálogo, um que seja, em que se lamente ou comente este fato, se o barulho atrapalha o descanso dela depois de um dia duro, etc? Um bailarino sem teto precisa pedir abrigo na casa de uma colega de companhia, o que rende um rápido conflito pessoal com ela, mas cadê as cenas em que se discute, como ilustração de uma certa tendência social, as dificuldades de moradia de quem pratica o balé e tem que morar em outra cidade, blá, blá, blá? Há uma exposição clara, física, das dificuldades, não uma exploração dramática banal por parte dos diálogos, e essa exposição leva o espectador com muito mais eficiência a pensar sobre as barreiras que os artistas enfrentam, incluindo as de dimensão psicológica.



Com isso, o painel social de De Corpo e Alma, surge então de uma maneira muito mais natural e pertinente. Mais importante ainda, a visão da realização artística neste filme é singular, mostra, mais que desejo ou missão no fazer arte, uma verdadeira vocação. No lugar da elegante ferocidade altmaniana, entra um olhar quase cândido. Logo, está certo considerar que o novo Altman é desdramatizado, pelo tom suave que se imprime ao drama humano, nunca que é um filme sem conflitos, o que é um equívoco brutal, pois atrás da suavidade do tom há um cerne pujante. A falta de uma “historinha” engrandece o todo.



Essa ausência de “historinha”, a dramaturgia que foge do óbvio no sábio roteiro de Barbara Turner, se mescla à perfeição com o estilo de direção do veterano cineasta, tanto pela técnica, ajudado pelas mãos mágicas de cortes precisos da também experiente montadora Geraldine Peroni (colaboradora habitual dele), quanto pelo conteúdo emocional. Em seus filmes-painéis, Altman sempre procurou trazer instantâneos da vida, fatias de vida, simultaneamente despojadas, mas com força dramática e relevância. Sempre trazendo personagens quase arquetípicos, porém cheios de vivacidade e autonomia, que nunca parecem estar inseridos de maneira artificial num amplo panorama mesmo quando representativos de determinado segmento (exceção feita à Prét-à-Porter, onde há mais caricaturas), como meros resumos de algo maior. E sim quase como se fossem pequenos contos, recortes num universo específico em narrativa fragmentada.



Bom exemplo de perspicácia na condução da obra vem da cena em que os personagens de Neve e Franco passam a primeira noite juntos, um instante que no conjunto não tem a menor importância para o resultado final (em termos práticos), e sim como demonstração de um grande trabalho de direção. Ela está jogando sinuca num bar e ele (que já a vira num restaurante em que trabalha como cozinheiro), a paquera (e é correspondido) com muita descrição. Corta para o dia seguinte, com Loretta / Neve acordando sozinha em seu apartamento, e logo depois Josh / Franco acorda (não ficamos surpresos pois ficara claro que eles iam dormir juntos, pela reciprocidade no jogo de gestos e olhares). Ele a interrompe na cozinha e pede para fazer o café da manhã dos dois. Tudo isso acontece, desde o começo no bar, através de um ritmo de cadência bem estruturada. Um filme normal mostraria a cena do bar de forma óbvia, com vários diálogos entre os dois durante o flerte, etc; outro, afeito a ser diferente, teria poucos diálogos no começo da paquera, e depois faria uma elipse bem rápida até o dia seguinte, procurando deixar uma dúvida no ar na hora do despertar (será que ele está com ela?). Aqui a cena de sedução dura o tempo mais adequado para cativar o espectador.



Não tenho condições de julgar a qualidade técnica das danças que aparecem neste filme, que parecem ser bonitas (mesmo que o balé final sofra com figurinos feiosos), porém chama a atenção de qualquer um o procedimento pouco estiloso das filmagens dos números de dança. O excesso habitual de planos picotados, aquele detalhismo comum nesse tipo de cenas, é substituído por vários planos à média distância, que não fogem a uma curiosidade e certo deleite, sem sublinhar demais esses momentos, mostrando a beleza dos movimentos com fluidez encantadora.





# DE CORPO E ALMA (The Company)

EUA, 2003

Direção: ROBERT ALTMAN

Roteiro: BARBARA TURNER

Produção: CHRISTINE VACHON, NEVE CAMPBEL, ROBERT ALTMAN, JOSHUA ASTRACHAN

Fotografia: ANDREW DUNN

Montagem: GERALDINE PERONI

Música: VAN DYKE PAKS

Elenco: NEVE CAMPBELL, MALCOM MCDOWELL, JAMES FRANCO, BARBARA E. ROBERTSON

Duração: 112 min

site: http://www.sonyclassics.com/thecompany/

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