Críticas


DOIS DIAS, UMA NOITE

De: JEAN-PIERRE E LUC DARDENNE
Com: MARION COTILLARD, FABRIZIO RONGIONE, OLIVIER GOURMET
13.02.2015
Por João de Oliveira
Um dos grandes filmes da bela safra do Festival de Cannes de 2014.

“Dois Dias, Uma Noite” talvez seja o filme mais engajado dos irmãos Dardenne. Acostumados a mostrar uma franja da população europeia que os sociólogos franceses andam chamando de invisíveis - na medida em que, marginalizados, eles vivem na periferia do capitalismo e das grandes cidades -, eles agora decidiram, através da luta de uma operária para manter seu emprego, denunciar abertamente o caráter venoso e associal do liberalismo econômico.

Pronta para voltar ao trabalho após uma licença médica por depressão, Sandra (Marion Cottilard) descobre que foi demitida. Seu patrão - que percebera durante a sua ausência que a empresa podia funcionar com um funcionário a menos desde que os outros aceitassem fazer algumas horas extras por dia (ainda que que eles pareçam não ter outra opção : coagidos pelo patrão e/ou seduzidos pela possibilidade de trabalhar e ganhar um pouco mais) - propõe aos seus empregados a dura situação de terem que escolher entre o retorno da colega adoentada e um bônus de mil euros. A maioria prefere o dinheiro. Dilema corneliano para a maioria, na medida em que qualquer que seja a escolha eles perdem alguma coisa, e vitória de Pirro para outros.

Não é necessário ser um conhecedor da obra militante dos cineastas belgas para perceber, desde o início, que o objetivo da narrativa é denunciar as injustiças do patronato e do grande capital, sempre interessado na acumulação primitiva em detrimento, sempre que possível, do operariado. Quando Sandra e a amiga vão lhe solicitar a possibilidade de um novo voto, sem a interferência ameaçadora do contramestre, o patrão demonstra-se irritado. Ele não se digna sequer a deixar o seu carro para ouvi-las e ainda as trata com uma certa ignorância, mesmo que elas estejam fora do horário e do âmbito do local de trabalho. O carro, e a distância que ele impõe, funciona como marcador social e espaço diferenciador.

Para melhor sublinhar essa crítica, a narrativa opta, acertadamente, por não demonizar a falta de solidariedade dos operários que preferiram receber a bonificação em detrimento da manutenção do emprego da colega. Ela prefere encarar o conflito do ponto de vista humano e social e não através de uma perspectiva moral. A culpa não é dos empregados, mas do patrão capitalista. Assim, quase todos possuem uma razão compreensível e justificável aos olhos de Sandra e do espectador, que vai do pagamento dos custos da faculdade dos filhos à construção, reforma, remobiliamento ou pagamento da casa própria. Com o baixo salário insuficiente para pagar as despesas, aliado ao desemprego dos cônjuges, alguns são obrigados a recorrer a algum tipo de biscate nos fins de semana, sacrificando o convívio com a família. Nessa situação de extrema dificuldade, eles não podem abrir mão dos mil euros. Alguns chegam mesmo a afirmar, como se necessário fosse, que não votaram contra a colega, mas pelo bônus.

Sandra, alterego da instância narrativa, entende a posição de seus colegas e sente-se constrangida em pedir-lhes tal sacrifício, o que não a impede de fazer, na medida em que ela e sua família também precisam comer. O papel do marido (Fabrizio Rongione, um habitué dos filmes dos Dardennes) parece ambíguo. Seu personagem impede o filme de cair no maniqueísmo rasteiro ou na heroicização da personagem. Não há heróis no filme, mas apenas vítimas do capitalismo.

“Dois Dias, Uma Noite” aproveita também para condenar, indiretamente, os baixos salários, a precariedade, a instabilidade dos empregos e o alto desemprego na Zona do Euro, assim como a indiferença social do patronato e de seus representantes. O capitalismo é imoral, parece pensar a narrativa, que evita judiciosamente a cilada do filme em esquetes - o que poderia destruir ou, no mínimo, prejudicar o cunho social da obra -, preferindo filmar a luta de Sandra como uma via-crucis. O filme mantém o suspense sobre a sorte de sua personagem até a sequência final.

A câmera na mão, uma característica dos cineastas, acompanha a sua personagem colada a ela o tempo todo, ora em movimentos agitados, ora estática. Marion Cotillard, uma vez mais, está divina e em perfeita adequação com seu personagem. Um dos grandes filmes da bela safra do Festival de Cannes de 2014.

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Outros comentários
    4050
  • Conceicão Pinto
    14.02.2015 às 06:23

    Marion Cottilard é uma atriz fantástica, pois cabe a ela deixar ao espectador colocar-se no lugar da protagonista. Creio que a discussão séria mesmo, é porque num mundo em que o assalariado percebe cada vez menos, o empresário quer receber cada vez mais? Porque seja qual for o regime, vide nosso país por exemplo, devíamos viver melhor e não é o caso... Mas o filme faz um bom relato de nosso dias... E até que alguém apareça para mudar as velhas teorias, continuaremos a observar tais problemas sociais. Obrigada.
  • 4055
  • João de Oliveira
    18.02.2015 às 13:26

    Cara Conceição Pinto, Obrigado por seus comentarios. Marion Cotillard é o que poderiamos chamar de coautora de seus personagens. Ela sempre acrescenta muitas coisas além do que fora previsto pelos roteiristas e/ou pelos diretores. Em relação à exploração do operariado, o problema é que vivemos em uma "civilização da calculadora", na qual o lucro virou uma obsessão transformada em dogma quase religioso. E isso é ainda mais flagrante em sociedades estamentais como a brasileira, na qual o egoismo e a cupidez do patronato são historicas. Nesses paises, a diferença entre o modo de produção escravista e o capitalista é quase que terminologica. Os que antes eram chamados de senhor e escravo, hoje são chamados, grosso modo, de patrão e empregado. Abraços.