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O BOM E O SIMPLESMENTE RUIM

16.02.2015
Por Nelson Hoineff
Como filmes de qualidade poderão disputar a atenção do público?

Tornou-se moda na Internet, mesmo em grupos especializados, saudar-se indistintamente o sucesso comercial de alguns filmes brasileiros que alcançam dois, três milhões de espectadores. A prática vazou agora também para filmes estrangeiros. 50 Tons de Cinza, por exemplo, está sendo celebrado por atingir 900 mil espectadores nos seus dois primeiros dias em cerca de 1.500 salas.

A razão pela qual temos que reagir contra esse tipo de celebração não é apenas ética mas é também mercadológica. Estamos saudando, na maioria das vezes, comédias brasileiras que apelam para o que há de mais promíscuo na capacidade de absorção de uma obra artística pelo público. Desnecessário dizer, é claro, que a mera suspeição de ambiguidades entre a obra de qualidade e a obra voltada para o grande público, além de velha, caquética, é hoje criminosa. Beira o ridículo, a essa altura, ter que citar os grandes filmes que vem obtendo boa repercussão entre público e crítica, mas a celebração deslavada do ruim é ou hipócrita ou estúpida; não beneficia a ninguém, nem aos produtores e distribuidores que tiram proveito efêmero do lixo oferecido ao espectador, nem à formação de plateias, que neste momento, em grande medida, se dá em meio à celebração da estupidez.

Essa plateia – sob a inspiração de sites como críticos.com.br e outros, que hegemonizam o pensamento fílmico – tem que dizer não, que não está impressionada com os milhões de espectadores que optam pelas comédias estúpidas que constituem hoje a grande base comercial do cinema brasileiro, nem com embustes internacionais como 50 Tons de Cinza que ocupam às vezes mais de 1400 salas de cinema brasileiras ao mesmo tempo. Tais filmes estão fazendo dinheiro mas são ruins. Não representam o que nos move para amar o cinema e isso já seria suficiente para repetirmos: são ruins.

O mercado de exibição e de distribuição para cinema passa por grandes transformações no Brasil. A fila de lançamentos – geralmente com mais de 200 títulos a cada instante – não é capaz de ser absorvida por um mercado que, por mais que se torturem os números, permanece estagnado. Os lançamentos se tornaram mais rápidos e mais esparsos. Filmes concorrentes ao Oscar são lançados em uma ou duas sessões diárias. Filmes brasileiros com cinco sessões e várias salas tornaram-se coisa do passado, exceção feita às comédias congeladas. Um filme brasileiro médio é ofertado com cerca de 15 sessões por semana em todo o circuito. Depois sai – vai embora como se jamais tivesse existido. É o que sobra para o filme brasileiro de boa qualidade: 15 oportunidades de ser visto, e só.

A situação não é muito diferente para o cinema estrangeiro de qualidade, seja ele hollywoodiano ou não. Panahi ganhou esta semana o Urso de Ouro em Berlim. Adivinhem em quantas salas, e em quantas sessões, Taxi fará sua carreira no Brasil?

A equação, portanto, consiste em se entender como filmes de qualidade poderão disputar a atenção do público – o que por certo não se dará em meio a um sistema monolítico de distribuição que não estabelece diferença entre títulos, que não cria nichos ou pontos de comercialização específicos. Mas não em lamber os pés das comédias estupidificantes, dos embustes do nível de 50 Tons, que confundem o espectador mais novo, que o induzam a pensar que ele é que está errado, e os outros certos.

Não há certo nem errado na avaliação subjetiva de uma obra, mas jogar confetes e serpentina sobre o grande feito de lixos culturais como esses – brasileiros ou não – conquistarem um grande número de adeptos é uma atitude pouco inteligente e, do ponto de vista de solidificação do mercado, inaceitável. Sites voltados para ajudar o público a entender o que está vendo, como esse, devem voltar-se contra isso. Dizer: não há nada a comemorar na vitória da mediocridade; há sim, um longo caminho pela frente para fazermos o que temos que fazer: estabelecer as diferenças entre a estupidez e o mérito; colaborar, do modo que pudermos, para que a experiência fílmica do nosso leitor seja cada vez mais gratificante – e que sua consciência de que o que está vendo é bom, é nobre, é enriquecedor, faça com que essa perversa equação mude gradativamente para melhor. Essa é a missão da crítica, bem acima de desenhar bonequinhos; esta é a missão da união de cinéfilos que gostam de pensar sobre o que veem, como a equipe de críticos.com.br e vários outros sites congêneres.

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Outros comentários
    4051
  • Ana Rodrigues
    17.02.2015 às 05:51

    Nelson, A mídia é tão burra que reproduz sem freio esse tipo de notícia. Um copia o outro e acaba fazendo propaganda sem pensar. Ninguém quer ter o trabalho de pensar.
  • 4060
  • Alberto Flaksman
    20.02.2015 às 09:03

    Quando um filme é bom, fala-se de suas qualidades e das críticas positivas que recebeu. Quando é ruim, dá-se publicidade ao número de ingressos vendidos na bilheteria. Essa estratégia não é nova, Hollywood usou e abusou dela desde sempre, e o cinema brasileiro absorveu a lição direitinho. Mas a campanha do Nelson é meritória e serve, sobretudo, para insuflar coragem nos nossos críticos e pensadores do cinema, que parecem se intimidar diante dos números do "sucesso". Que a indústria cultural necessite dos produtos de vendagem maciça é uma coisa, mas a crítica e o pensamento sobre o cinema sempre deverão obedecer a outros critérios.
  • 4085
  • Douglas Pizza
    26.03.2015 às 11:55

    Poxa vida! Hoineff, tem tanta resenha que só fazem vender o peixe, mas sabemos que o produto não é bom. Que tenhamos mais textos lúcidos como o seu.
  • 4108
  • Anderson
    14.05.2015 às 22:17

    Filme brasileiro ... de 100 produzidos 2 da pra assistir ...resumindo .... sao ruins e ponto final