Críticas


O ANO MAIS VIOLENTO

De: J. C. CHANDOR
Com: OSCAR ISAAC, JESSICA CHASTAIN, DAVID OLEYOWO, ALBERT BROOKS
01.04.2015
Por Luiz Fernando Gallego
A violência do título é a do sistema capitalista quando a livre concorrência se transmuta em caricatura de grupos mafiosos.

Apesar do título - fiel ao original - o terceiro filme do diretor J.C.Chandor (de Margin Call – o dia antes do fim, 2011) não abusa de cenas gráficas de violência física, ainda que seu enredo esteja situado na Nova York de 1981 - dito o ano de maior índice de violência da cidade. A violência aqui é mais a do sistema capitalista no que tem de pior, quando a livre concorrência se transmuta em caricatura de grupos mafiosos querendo devorar-se mutuamente.

O personagem central, ‘Abel Morales’ (um nome carregado de significados: a primeira vítima bíblica, os princípios morais) a todo instante reafirma sua honestidade...até onde um empresário cercado de concorrentes famigerados e de leis, regulamentações e taxações mais ou menos abusivas, consegue ser de fato “honesto”. Talvez a convicção de Abel sobre sua honestidade esteja em fatos como a firme discordância de que os motoristas que transportam sua valiosa carga usem armas para que se defendam face à intensa onda de assaltos que os atinge. Ao contrário dos que preconizam o uso de armas, mesmo sem licença – e de modo defensivo que seja, quase um “princípio” da sociedade americana – Abel prefere recorrer aos agentes da Lei...para descobrir que, com mais ou menos motivos, seus negócios estão para sofrer importantes investigações pela Justiça.

Anna, sua mulher, pensa diferente: enquanto Abel quer manter as mãos limpas - ainda que daqui para a frente, no caso de que, no passado, a contabilidade feita por Anna ter seguido um estilo mais “esperto” do que ortodoxo - ela não pensa duas vezes no caso de ter que usar métodos como os que o pai dela, um gangster, usava em outros tempos. Chamá-la de Lady Macbeth é um grande exagero, mas, comparativamente, ela é muito mais ousada do que ele quando seus territórios pessoal, familiar e profissional mostram-se ameaçados.

Roteiro, direção e a composição discreta de Oscar Isaac no papel do homem que diz querer sempre evitar medidas ilegais, fazem a plateia inclinar-se a torcer por ele. E a ficar tensa quando o mundo que Abel tenta construir ameaça desabar e destroçar suas ambições. Em filmes recentes nos quais o ator esteve, Isaac parece recorrer demais a uma mímica menos variada (apenas um pouco mais “zangada” para Inside Llewyn Davis, dos Coen), muito semelhante aqui e em As duas faces de Janeiro. Não se pode negar que sirva bem ao perfil destes personagens, cabendo a ressalva de que em outro filme, lançado diretamente em DVD no Brasil, Em Segredo, Isaac mostrou que pode interpretar homens com expressões faciais menos constantes. Inicialmente seria Javier Barden quem teria o papel, mas o “estilo” (minimalista?) de Isaac parece ter sido melhor para o tom do filme do que se Barden não tivesse discordado da linha de direção.

Jessica Chastain também elaborou uma performance "de dentro para fora" em relação à personagem que não é tão cool como 'Abel', tornando interessante a tensão criada entre sua interpretação mais interiorizada e as roupas, cabelos e maquiagem com que 'Anna' é caracterizada externamente.

Todo o restante do elenco funciona muito bem, e Chandor mostra-se, além de hábil diretor de atores, aplicado no uso de enquadramentos, como os que usa quando faz tomadas em planos abertos ao ar livre, recorrentes, como que pontuando certos momentos particulares da trama de modo pertinente.

Sem exagerar na caracterização da virada dos anos 1970 para o início dos ’80, a direção de arte só sublinha um pouco mais do que o necessário quando é acentuado o sobretudo mais claro de Abel em contraste com roupas mais escuras e o branco da neve de um inverno abaixo de zero. Bradford Young já havia fotografado com esmero o pouco visto Amor fora da lei (2013), ao qual emprestou ótimo clima de época para as locações da história, e consegue o equivalente aqui sem recorrer a cores mais gritantes. A edição de Ron Patane segue, de certo modo, o ritmo menos acelerado que ele também usou em algumas passagens de O Lugar onde tudo termina (2012), sem diminuir a tensão que o filme mantém durante praticamente todos os seus 120 minutos. Pelo contrário.

Apenas o subplot do personagem Julian não parece suficientemente desenvolvido, sem chegar a prejudicar o resultado final bastante satisfatório.

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