Críticas


QUERIDO ESTRANHO

De: RICARDO PINTO E SILVA
Com: DANIEL FILHO, SUELY FRANCO, ANA BEATRIZ NOGUEIRA, EMILIO DI MELLO, CLAUDIA NETTO, MARIO SCHOEMBERGER
23.07.2004
Por Carlos Alberto Mattos
ABAIXO O CONFORMISMO

O lançamento de Querido Estranho coincide com a permanência em cartaz de Lugares Comuns, o que dá margem a leituras de complementaridade, assim como a paralelos interessantes entre os momentos vividos pelos cinemas brasileiro e argentino. Não se trata de comparar simplesmente os dois filmes, mas de verificar como determinadas tradições de dramaturgia se refletem no resultado de cada um.



Querido Estranho é baseado em texto teatral (Intensa Magia) de Maria Adelaide Amaral, autora traquejada em roteiros também para a televisão. Essa polivalência favorece a adaptação da peça para uma linguagem que, embora aplicada ao cinema, exala TV por todos os poros. Isso significa filmagens exclusivamente em estúdio, preferência por tomadas muito próximas do rosto ou do corpo dos atores e uma decupagem que se pauta unicamente pela sucessão de falas, como se qualquer pausa pudesse colocar em risco a atenção do (tel)espectador.



O filme de Ricardo Pinto e Silva precisa desesperadamente manter o público “ligado” nos diálogos dessa família que se reúne para comemorar o 64º aniversário do pai e o noivado de uma das filhas, festa que se transforma numa intensa troca de agressões e manifestações de estóica resignação, durante 24 horas de suplício em grupo. Os atores são o melhor trunfo à mão (com destaque quantitativo e qualitativo para Daniel Filho), embora nem sempre tenham sucesso em disfarçar o artificalismo com que as situações se desenrolam, as mudanças muito bruscas, o ritmo tortuoso em que é dito um texto que, pelo menos no cinema, não parece dos mais inspirados.



Se Querido Estranho carrega todos os sinais de um modelo de cinema que clama pela comunicação e precisa se viabilizar enquanto possibilidade econômica, Lugares Comuns cumpre os mesmos objetivos sem fazer clamor. O veterano Adolfo Aristarain nos traz mais uma versão de seu herói outonal da consciência burguesa [vide Um Lugar no Mundo, Martín (Hache)], como sempre interpretado pelo magistral Federico Luppi e em roteiro escrito com Kathy Saavedra, esposa do diretor.



Apesar de marcadamente literário, o texto de Aristarain flui sem qualquer impressão de mecânica, como se emanasse da própria respiração dos personagens – sobretudo do sessentão Fernando, um professor de pedagogia que é aposentado contra a vontade e tenta manter a dignidade num país em processo de bancarrota. A sobrevivência econômica, porém, é apenas um indicativo – e às vezes até um estorvo – para a sobrevivência moral de uma mentalidade humanista expelida do sistema. Fernando tem na fidelidade à mulher, à literatura e aos velhos ideais (ele ainda sonha em ”botar finalmente em prática” os preceitos da Revolução Francesa) uma apólice que só pode ser resgatada por ele próprio e, quando muito, pela esposa-amiga-cúmplice que o acompanha há décadas (Mercedes Sampietro, igualmente extraordinária).



Sua complexa interação com o filho radicado em Madri é o ponto nodal de todo o entrecho: expõe a diferença de projetos geracionais em chave bem mais efetiva e menos afetada que Invasões Bárbaras, além de tematizar a questão do exílio, presente em outras tantas reflexões de Aristarain sobre a condição argentina contemporânea. A Espanha é a metrópole cultural que importa para os argentinos, com a qual mantêm uma constante relação de aspiração e repulsa.



Em Lugares Comuns, o pessoal e o político se somam como palavras num texto harmonioso (veja aqui trechos ditos por Fernando, extraídos do romance El Renascimiento, de Lorenzo Aristarain, primo de Adolfo, no qual se baseou o roteiro). Sem cair na nostalgia, o filme evoca a memória de um mundo cortês e leal, onde prevalece o compromisso, assim como de um cinema impregnado pelo pensamento e de uma simplicidade que é o moderno em sua melhor acepção.



Conjunto esse de qualidades que passa ao largo de Querido Estranho, a começar pela acidez de seu tema da família arruinada pela mediocridade de uns e a canalhice de outros. Os dois filmes se aproximam na crítica a um modo de vida conformista, embora o façam por caminhos muito diferentes. Falta ao filme brasileiro as nuances que atribuem humanidade mesmo às criaturas mais vis. Tudo aqui soa esquemático por força de caracterizações pesadas e de um roteiro que não deixa margem à criação de atmosfera para além dos diálogos. As pessoas não vivem, pensam e permitem ao público pensar sobre elas. Apenas falam e reagem ao que é falado.



A potência emocional do filme de Aristarain provém da escritura perfeita e de um projeto autoral que encara de frente os dilemas vividos pelo seu país. Enquanto isso, Querido Estranho permanece insulado no hui-clos de sua discussão moral e nos limites estreitos de uma estética apavorada diante da menor ousadia.





# QUERIDO ESTRANHO

Brasil, 2004

Direção, adaptação e roteiro final: RICARDO PINTO E SILVA

Roteiro: JOSÉ CARVALHO, baseado na peça Intensa Magia de MARIA ADELAIDE AMARAL

Produção: RICARDO PINTO E SILVA, CRISTINA PROCHASKA

Fotografia: LUÍS ABRAMO

Montagem: PAULO H. FARIAS

Direção de arte: LÍDIA KOSOVSKY

Som: SILVIO DA-RIN

Elenco: DANIEL FILHO, SUELY FRANCO, ANA BEATRIZ NOGUEIRA, EMILIO DI MELLO, CLAUDIA NETTO, MARIO SCHOEMBERGER

Duração: 95 minutos

Site oficial: http://www.queridoestranho.com.br





# LUGARES COMUNS (LUGARES COMUNES)

Argentina, 2002

Direção: ADOLFO ARISTARAIN

Roteiro: ADOLFO ARISTARAIN, KATHY SAAVEDRA, baseado no romance El Renascimiento, de LORENZO ARISTARAIN

Produção: GERARDO HERRERO, ADOLFO ARISTARAIN, JAVIER LÓPEZ BLANCO

Fotografia: PORFIRIO ENRÍQUEZ

Montagem: FERNANDO PARDO

Direção de arte: ABEL FACELLO

Elenco: FEDERICO LUPPI, MERCEDES SAMPIETRO, ARTURO PUIG, PABLO RAGO

Duração: 112 minutos

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