Críticas


BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS, O

De: MICHEL GONDRY
Com: JIM CARREY, KATE WINSLET, KIRSTEN DUNST
27.07.2004
Por Rodrigo Fonseca
DEMÔNIOS DO ESQUECIMENTO

“E as mãos do sonho sobre os meus olhos,/ e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,/ e as estampas do meu catecismo/ para o meu sonho de ave! E isso tudo tão longe... tão longe...” Sobre o passado, e o desterro do ontem, o escritor alagoano Jorge de Lima (1893-1905) escreveu uma Oração, poema de dor, com a ginga fervorosa de sua devoção pelo misticismo humano. Sobre o mesmo tema, Michel Gondry e Charlie Kaufman evocaram espíritos diferentes, mas que também enxergam seu devaneio como pássaro solto. Fizeram uma obra-prima.



Talvez a mais bonita, mais sofrida, mais necessária expressão da imperfectibilidade humana que um ano apinhado de pérolas cinematográficas de engajamento emotivo conheceu. Formalmente, a fotografia de Ellen Kuras (de Profissão de Risco), calcada em bruxuleante iluminação, reforça a sinestesia de delírio proposta por uma trama que investiga os (des)caminhos do querer. A cimenticola sem liga da memória afetiva.



Montado com a (des)elegância dos apaixonados pelo islandês Valdís Óskarsdóttir (de Festa de Família), que concede ao resultado final a frieza de um Dogma, Eternal Sunshine of the Spotless Mind – nome sem tom para a tradução brasileira – ganhou carcaça, fígado, pulmões e um ventre gentio da dobradinha entre o roteirista/criador e um diretor indignado com a poeira baixa da quietude. E ambos encontraram em Jim Carrey o porta-voz de sua agonia zangada. Trata-se de uma comovente reflexão sobre o medo do abandono. Não do abandono absoluto. O pavor da luz apagada. O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças fala do horror de ser abandonado por quem se quer, de quem se quer mais.



Seja calado, seja soluçando, berrando de falta, com um rasgo de ausência no peito, Carrey despe-se completamente da persona careteira que (merecidamente) o consagrou, para abraçar a introspecção. Carrega consigo o carisma transformador de reles mortais em ícones eternos. E irradia a cena com sua luz de astro-rei.



Há uma discussão aristotélica no longa que transita pela esfera da realização física do prazer de estar vivo. Alegoria anti-platônica, a saga de Joel Barish (Carrey) e sua amada Clementine (Kate Winslet) viaja pelos corredores da história da arte cinematográfica mais num exercício de doce homenagem que numa estilosa brincadeira metalingüística. E essa jornada pelas citações está expressa nos demônios sem cara que significam o esquecimento. Dados deletados. Informações que vão além de combinações binárias.



No posto do um, está o amor. No lado do zero, há a vida, sua inimiga. E do choque entre ambas, surge uma Kirsten Dunst linda, lépida e provocante que dá curto-circuito em um sistema de indigitados enigmas. O maior deles: como ser feliz. A pista: perseverança. Sua linguagem: a desculpa, a renúncia, o carinho.



# O BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (ETERNAL SUNSHINE OF THE SPOTLESS MIND)

Direção: MICHEL GONDRY

Roteiro: CHARLIE KAUFMAN

Fotografia: ELLEN KURAS

Montagem: VALDÍS ÓSKARSDÓTTIR

Música: JOHN BRION

Elenco: JIM CARREY, KATE WINSLET, KIRSTEN DUNST, ELIJAH WOOD, MARK RUFFALO, TOM WILKINSON

Duração: 108 minutos



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