Críticas


DE PASSAGEM

De: RICARDO ELIAS
Com: SÍLVIO GUINDANE, ROBÉRIO BRANDÃO, FÁBIO NEPÔ, PAULO IGOR, GLENYS RAFAEL
31.07.2004
Por Daniel Schenker
TRANSIÇÕES DE IMPACTO

“Desculpe, mas eu não te reconheci”, assume Jeferson para o amigo Kennedy ao revê-lo depois de muitos anos de afastamento. De Passagem, filme de Ricardo Elias vencedor de cinco prêmios no Festival de Gramado do ano passado (melhor filme do júri oficial, da crítica, direção, roteiro e ator coadjuvante para Fábio Nepô), aborda a possibilidade de reconhecimentos distanciados – como o de Jeferson diante de Kennedy, da casa e do bairro de sua infância – gerarem uma retomada de elos afetivos.



O título do filme resume com precisão as diversas transições abordadas em pouco menos de 90 minutos de projeção: transição da amizade para a separação imposta pelos rumos diversos na vida e depois para o início do resgate de uma cumplicidade; transição da inocência para o chamariz da contravenção e, então, para a legalidade; transição de uma postura inflexível para um olhar mais dadivoso, decorrente de uma compreensão do outro e de suas circunstâncias. “O difícil da vida é que todo mundo tem as suas razões”, diz Jeferson, enquanto viaja, ao lado de Kennedy, de um bairro da periferia até Francisco Morato, passando, no meio do caminho, por Santo Amaro.



Uma travessia metafórica de (re)conhecimento mútuo no que diz respeito aos dois ex-amigos e deles em relação ao corpo de Washington, irmão com que Jeferson praticamente perdera contato desde que se mudara para o Rio de Janeiro para seguir carreira militar. Mas trata-se também de uma jornada concreta, que capta, da janela de um ônibus, a passagem da geografia da periferia para a dos bairros mais abastados de São Paulo e o (aparentemente?) estagnado processo intermediário de Brasilândia, mescla de bairro e favela onde De Passagem foi filmado. Em comum entre as passagens de uma sólida amizade para um relacionamento que se perdeu na distância e do cinturão da periferia para os bairros nobres está uma brutal sensação de impacto, decorrente não só de mundos que parecem diversos como do contraste entre o que existiu um dia e o que acabou efetivamente acontecendo.



Ricardo Elias, porém, sinaliza com esperança ao não apostar no caráter definitivo dos acontecimentos. Quase tudo tem jeito e volta, parece sublinhar o diretor, que concilia o otimismo com o investimento num retrato sem retoques da periferia e da fronteira tênue com a marginalidade. A distância de uma estilização que, às vezes, artificializa rostos e lugares é, sem dúvida, um dos pontos positivos de De Passagem, trabalho marcado por uma tentativa de integração (não totalmente amalgamada) entre ficção e documental.



A sinceridade supera ingenuidades naturais num longa-metragem de estréia, como a construção estereotipada dos personagens (a oposição entre Jeferson e Kennedy, com o primeiro sempre preocupado em agir de maneira absolutamente correta e o segundo aderindo aos atalhos do cotidiano, e entre ambos e Washington na infância, com cada um simbolizando uma consciência moral diversa), passagens marcadas pelo clichê (o grito de desespero da mãe, na seqüência de abertura, ao receber, no meio da noite, a notícia do falecimento do filho) e a contracena, em dados instantes, esquemática entre passado e presente. É importante dizer que De Passagem ganharia bastante com a supressão de uma cena – aquela em que os garotos optam entre continuar ou não colaborando com um traficante –, incluída para reiterar uma mensagem: qual o lado na vida que você escolhe? Mas são restrições inferiores às qualidades do filme, valorizado pela interpretação de Silvio Guindane e pela trilha sonora de André Abujamra.



# DE PASSAGEM

Brasil, 2003

Direção: RICARDO ELIAS

Roteiro: CLÁUDIO YOSIDA e RICARDO ELIAS

Produção: ASSUNÇÃO HERNANDES e VAN FRESNOT

Música: ANDRÉ ABUJAMRA

Montagem: REINALDO VOLPATO

Elenco: SÍLVIO GUINDANE, ROBÉRIO BRANDÃO, FÁBIO NEPÔ, PAULO IGOR, GLENYS RAFAEL

Duração: 87 minutos

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