Críticas


EVANDRO TEIXEIRA: INSTANTÂNEOS DA REALIDADE

De: PAULO FONTENELLE
05.08.2004
Por Carlos Alberto Mattos
PELA LENTE DA ADMIRAÇÃO

Documentários como Evandro Teixeira: Instantâneos da Realidade são marcados pela reverência à personalidade enfocada. São a admiração e o respeito que levam o documentarista a escolher seu objeto de trabalho, ficando de alguma maneira refém daqueles sentimentos. O filme de Paulo Fontenelle não foge à regra. É obra de admirador, um jovem cineasta que dedica seu primeiro longa-metragem a um mestre da fotografia brasileira e internacional.



A deferência determina a própria linguagem do filme. Com poucas exceções, as fotos de Evandro são filmadas dentro do seu enquadramento original, como a sublinhar que ali não se encontram meros flagrantes de jornalismo, mas imagens que superaram essa condição para constituírem obras de arte. Sebastião Salgado revê, no trabalho do colega, um Brasil que ele havia esquecido. Fritz Utzeri lembra que as fotos de Evandro exigiam textos de alto nível para acompanhá-las. A edição de imagens e depoimentos só não assume ares de elegia porque o próprio Evandro, com seu jeitão simples, não inspira tal tratamento.



Para não ficar na mera louvação, Fontenelle procurou explorar as histórias por trás de fotos famosas. Algumas são ótimas e desencadearam bem mais que grandes cliques. Foi Evandro, por exemplo, quem levou Elza Soares ao vestiário para conhecer Garrincha. Os deslocamentos do fotógrafo em busca do “momento decisivo” da foto (o termo é de Evandro) mereciam mesmo essa simpática crônica.



Um pintor pode pintar um quadro a partir da memória ou de uma foto; um escritor pode escrever um livro sobre uma cidade em que nunca esteve. Mas um fotógrafo não pode deixar de comparecer ao “local do crime”. A fotografia é uma arte de corpo presente, quase tanto como a dança. Arthur Omar, por exemplo, precisa “entrar em fase” com o objeto fotografado. Instantâneos da Realidade alcança seu “momento decisivo” quando acompanha a volta de Evandro à região de Canudos, ao reencontro das pessoas que ele havia fotografado em 1997 para o livro Canudos 100 anos. Nessa reportagem, que flagra o fotógrafo em atitude auto-reflexiva – sendo reconhecido, comentado e até criticado por seus retratados –, o documentário de Paulo Fontenelle expande sua respiração e reivindica sua personalidade.





# EVANDRO TEIXEIRA: INSTANTÂNEOS DA REALIDADE

Brasil, 2004

Direção, roteiro e montagem: PAULO FONTENELLE

Fotografia: MÁRCIO BREDARIOL, CLEISSON VIDAL

Som: JOEL HILÁRIO

Duração: 76 minutos

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