Críticas


EU, ROBÔ

De: ALEX PROYAS
Com: WILL SMITH, BRIDGET MOYNAHAN, BRUCE GREENWOOD
10.08.2004
Por Carlos Brandão
UM ASIMOV DESPERDIÇADO

Eu, Robô é provavelmente a obra-prima de Isaac Asimov, universalmente reconhecido como um dos maiores autores de todos os tempos da literatura fantástica e da ficção científica. Nesse livro, composto de nove histórias curtas, o escritor de origem russa estabeleceu as famosas três leis da robótica, onde a Primeira Lei estabelece que um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal ; a Segunda Lei ordena que um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei ; e finalmente a Terceira Lei, aquela que um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.



Essas leis, aparentemente de uma lógica perfeita , colocavam no entanto questões filosóficas – sobretudo ligadas à identidade e às emoções – que o cinema vem explorando, por vezes com enorme competência, como foi o caso de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, e de Blade Runner - O Caçador de Andróides, de Ridley Scott. Outros filmes também abordaram os temas embutidos na relação homem/máquina sem a mesma força, mas de qualquer forma usando de muita criatividade . Esse foi o caso dos dois episódios do Exterminador do Futuro, de James Cameron, A.I. Inteligência Artificial e Minority Report – A Nova Lei, ambos de Steven Spielberg, por exemplo. A trilogia de Guerra nas Estrelas, de George Lucas, também é um bom exemplo do uso de seres cibernéticos na tela, que longe de obedecerem às leis da robótica, matavam seres humanos de montão.



Surge agora um filme intitulado Eu, Robô, que qualquer amante da ficção científica sairia correndo para assistir. Afinal, Asimov é Asimov , mesmo quando as letras de tipo pequeno do material de divulgação informam que o filme é “sugerido” pelo livro. Bem, a gente conhecia “baseado”, “inspirado”, mas “sugerido” era novidade.De qualquer maneira, a ficha técnica trazia nomes e siglas familiares para quem leu o livro : lá estavam a Doutora Susan Calvin, especializada em psicologia robótica ; Lawrence Robertson, o ardiloso CEO da US Robots (USR),e também “o homem mais rico do mundo” (lembram de alguém?) ; e por último, mas principalmente, o Doutor Alfred Lanning, idealizador e pai de todos os robôs.



Os personagens eram os mesmos. Mas logo descobrimos que estavam participando de uma história nova, que quase nada tinha a ver com aquela criada por Asimov. Na verdade, eram figuras de um pout-pourri “sugerido”, aí sim, pelos filmes citados ali em cima, sobretudo Blade Runner. Lá estão a máquina com problemas de identidade, a poderosa corporação criadora e construtora de seres artificiais instalada numa torre pairando acima da cidade (Chicago ou Los Angeles, a bandeira é a mesma) e um policial que não gostava de seres artificiais caçando um robô assassino. O detetive Spooner é, como Deckart era, - pelo menos - parcialmente cibernético. De 2001, a história importou o super cérebro V.I.K.I. que, afinal, era o grande vilão, portador do mesmo DNA anti humanista do neurótico HAL.



Assim, de filme em filme, os roteiristas Jeff Vintar e Akiva Goldsman foram “sugerindo” sua história esquemática e superficial onde aparentemente a preocupação principal era criar um veículo para que Will Smith brilhasse com seu carisma reconhecido, seu tênis Converse All Star (em 2035, “não havia nada igual”) e seu automóvel Audi que só faltava voar. Sem que esquecessem outro marketing comercial, desta vez o da FedEx, com seus pacotes entregues por prestimosos robôs carteiros. No final, com tantas coisas para “sugerir”, o roteiro deixou o espectador sem saber que tipo de filme assistiu: uma ficção científica genuína? Um thriller? Um filme de ação? Um longo comercial?



A lamentar também que Alex Proyas, diretor do cultuado Cidade das Sombras (Dark City), uma verdadeira sci-fi digna do nome, pareça ter esquecido na Austrália o talento que demonstrou naquele filme e também em O Corvo (The Crow), outra pequena jóia. Tomara que não. Enquanto isto, vamos esperar que o espírito do grande Isaac Asimov esteja vagando por espaços longe das salas de cinema onde Eu Robô está sendo exibido, para não tomar conhecimento da blasfêmia de que o seu livro tenha sugerido semelhante coisa.



# EU, ROBÔ (I, ROBOT)

EUA, 2004

Direção: ALEX PROYAS

Roteiro: JEFF VINTAR e AKIVA GOLDSMAN

Elenco: WILL SMITH, BRIDGET MOYNAHAN, BRUCE GREENWOOD

Duração: 115 min.



Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário