Críticas


UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA

De: ROY ANDERSSON
Com: HOLGER ANDERSSON, NILS WESTBLOM, LOTTI TÖRNOS
17.05.2015
Por Luiz Fernando Gallego
Uma espécie de surrealismo menos escandaloso mesclando o prosaico ao insólito.

Quem assistiu, há uns sete anos atrás, Vocês, os vivos, do mesmo diretor sueco, Roy Andersson, não terá muitas surpresas ao ver este Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (Leão de Ouro em Veneza 2014). São os mesmos planos fixos com cenários que ficam no limite entre o hiper-realismo, o oniróide e o "teatral" com ambientes que lembram/sugerem as décadas de 1940, ‘50 ou ’60.

As cores surgem em tons esmaecidos, quase monocromáticos, e os ambientes interiores, como salas ou quartos, muitas vezes mostram portas ao fundo dando para outros cômodos que apenas entrevemos; lojas comerciais têm amplas vitrines para ruas praticamente desertas; e as ruas podem ter vitrines largas que exibem - parcialmente - o interior das lojas ou restaurantes. Também há corredores com várias portas em perspectiva. Ou seja: há quase sempre um insólito - e ao mesmo tempo simples - efeito de profundidade nas cenas. Estas, mostram várias vezes os mesmos personagens ou situações, praticamente todas tragicômicas - não no sentido da gargalhada, mas do riso amarelo. Cada cena não mantém necessariamente continuidade com a seguinte, um pouco como esquetes independentes, havendo, entretanto, pequenos "enredos" (se podemos assim dizer) que se desenvolvem mais à frente - ao lado de vários outros "quadros" que surgem uma única vez.

Chamam mais a atenção os personagens que reaparecem, como o de uma professora de dança espanhola, mais para cheinha e menos jovem que seus alunos, especialmente do que um deles com o qual, a todo o momento, ela tenta um contato mais íntimo - enquanto o rapaz rejeita o contato "extra" com a insistente mestra. E os dois depressivos vendedores de “divertimentos” (tão antiquados como dentes de vampiros ou sacos de risadas) que reaparecem mais vezes do que os demais.

Já a inserção anacrônica de infantaria e cavalaria do Rei Carlos XII - da Suécia (o qual pouco significa para nós de outros países) em um bar de aspecto anos 1950, desperta curiosidade pelo inusitado, mas não sustenta o interesse, problema do filme como um todo, à medida que sua duração se estende por quase 100 minutos com as mesmas situações - ou outras parecidas quanto ao clima melancólico e de amargo humor.

O desfile insólito e de um surrealismo em clave menos gritante do que ficamos mais acostumados com Buñuel ou Dalí (talvez mais associado a algumas coisas de Magritte, mesclando o inusitado ao prosaico) começa muito bem, especialmente nas três primeiras cenas ligadas à morte, mas a proposta se revela repetitiva para um longa metragem. Ou para três longas, já que este seria o desfecho de uma trilogia.

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