DVD/Blu-ray


A Arte de Mario Bava, em DVD, pela Versátil

De: MARIO BAVA
Com: BARBARA STEELE, STEPHEN FORSYTH
22.05.2015
Por Octavio Caruso
O mestre italiano sendo finalmente tratado com o respeito que merece.

A Maldição do Demônio (La Maschera del Demonio – 1960)

A celebrada estreia do diretor italiano Mario Bava, deixando um pouco de lado o personagem de Bram Stoker, ele se baseou no conto vampiresco russo: “The Vij” de Nikolai Gogol. A atriz Barbara Steele e seus enormes e lindos olhos ficaram para sempre impressos nas retinas dos fãs de horror. Ela interpreta uma bruxa que, ao ser assassinada pela inquisição, tendo recebido a máscara de tortura, coberta de pregos, por seus algozes, retorna após duzentos anos como uma vampira para tomar o corpo de sua descendente. Um fator curioso é que, na versão inglesa, omitiram a relação incestuosa da princesa vampira com o irmão, Javutich.

O produtor Nello Santi queria filmar em cores, mas Bava preferiu filmar em preto e branco, o que acabou entregando uma atmosfera mais onírica, já que o uso generoso de miniaturas e de cenários pintados poderia ter ficado evidente demais, perdendo um pouco da mágica fusão desses elementos. A ambientação gótica, pendendo para o conto de fadas, acabou realçando o simbolismo de algumas cenas. Demonstrando sua maturidade artística, já em seu primeiro projeto, o diretor teve o cuidado de preparar storyboards, algo que não era usual à época, o que diz muito sobre a preocupação essencial dele, desde o início, com a identidade visual das suas obras. A trama vinha em segundo plano, o mais importante eram as formas que ele encontrava para, driblando o baixo orçamento, transportar suas ideias para a realidade das filmagens.

Cães Raivosos (Cani Arrabbiati – 1974)

Esse filme é um vigoroso murro na cara do espectador, um trabalho genialmente despretensioso, bem diferente do que o diretor costumava realizar, com câmera na mão, passado quase que em sua totalidade no confinamento de um automóvel, onde podemos sentir o odor do suor e do sangue dos três sequestradores e de suas vítimas. É uma intensa brutalidade, em tempo real, que se eleva gradualmente, à medida que o desespero toma conta desse microcosmo da sociedade, em que ninguém parece ser verdadeiramente inocente.

Mario Bava, um dos maiores diretores de sua época, praticamente sem uma moeda no bolso, tentava provar para seu público que ainda era capaz de competir com os jovens cineastas e seus filmes policiais. O produtor faliu, o projeto teve que ser cancelado. E, infelizmente, o idealizador faleceu sem conseguir ver sua última obra-prima finalizada, que seria lançada, com uma montagem equivocada, apenas na década de noventa. A versão que consta nesse impecável lançamento da distribuidora “Versátil” é a mais fiel à visão do diretor, restaurada após um esforço dedicado da atriz da obra, Lea Lander, em respeito ao legado artístico do mestre italiano.

É difícil comentar sem revelar spoilers, porém, sinalizo na direção de uma das cenas mais impactantes, a pressão psicológica que a mulher, vivida por Lander, após uma tentativa de fuga, sofre de uma dupla de psicopatas que caberiam perfeitamente na família do Leatherface de “O Massacre da Serra-Elétrica”: O Bisturi, vivido com competência pelo cantor Don Backy, uma espécie de Jerry Adriani italiano, e o pervertido Trinta e Oito, vivido por George Eastman, rosto marcante em vários Spaghetti Westerns. O nível de tensão alcançado, com total simplicidade técnica, faria Sam Peckinpah roer as unhas.

O Alerta Vermelho da Loucura (Il Rosso Segno della Follia – 1970)

Para qualquer um que duvide da genialidade de Mario Bava, basta prestar atenção nesse filme, que aborda a gradual perda de sanidade de um homem, dono de uma loja de design nupcial, que, abalado por um trauma, acaba se tornando um assassino de noivas. De forma sutil, diferente de suas obras mais famosas, ele demonstra sua preferência pela identidade visual, podendo ser equiparado a outro mestre das minúcias, Alfred Hitchcock. Sem revelar spoilers, algo verdadeiramente prejudicial na experiência com sua filmografia, eu posso citar três exemplos, momentos que me fizeram pausar e voltar essas cenas.

Perceba como ele trabalha o vestuário do protagonista, vivido por Stephen Forsyth, evidenciando a figura da corrente branca no cinto, em destaque nas roupas de tom escuro, que ele usa praticamente o filme todo. Um homem acorrentado ao trauma de sua infância. E, o mais interessante, no exato momento em que ocorre o maior plot twist, que obviamente não revelarei, ele está usando uma espécie de pijama, com correntes desenhadas dos pés à cabeça, mostrando que, daquela cena em diante, não há mais possibilidade de fuga para o personagem. O segundo exemplo ocorre na cena da escadaria, onde ele encontra uma visão aterrorizante, que o encara ameaçadoramente. Em qualquer filme similar, a ação seria resumida ao estabelecer da situação, porém, Bava estende a sequência ao máximo, fazendo com que a aparição volte o olhar para ele diversas vezes, potencializando a arrepiante estranheza e o tom de pesadelo. O terceiro exemplo eu considero, de fato, uma aula. Já próximo do desfecho, o sutil tremor de nervoso em uma personagem que, em teoria, não teria motivo algum para exibir tal reação. Um detalhe que pode até passar despercebido, mas que faz todo sentido na resolução da sequência.

A inteligência visual, essa preocupação de esteta dedicado. As ousadias narrativas, um estilo que diretores americanos copiaram, com o devido crédito apenas depois da morte dele, com a desculpa de estarem homenageando. É fantástico poder ver o trabalho de Mario Bava sendo lançado em home vídeo com o respeito que ele merece, mérito da sempre competente distribuidora "Versátil", para a apreciação daqueles que genuinamente amam o cinema.

A caixa "A Arte de Mario Bava" conta ainda com o filme "A Garota Que Sabia Demais", além de documentários. É essencial, especialmente para aqueles brasileiros que ainda tratam equivocadamente o cinema de gênero como algo inferior.

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