Críticas


JAMES BROWN

De: TATE TAYLOR
Com: CHADWICK BOSEMAN, NELSAN ELLIS, DAN AYKROYD, VIOLA DAVIS
26.05.2015
Por Marcelo Janot
Mesmo revisitando elementos já conhecidos de sua biografia recheada de escândalos, “James Brown” consegue manter um pique tão contagiante quanto seu vasto acervo de obras-primas musicais.

Não deixa de ser estranho que “James Brown” (“Get On Up”) tenha passado em branco no Oscar 2015. Dirigido pelo mesmo Tate Taylor que emplacou quatro indicações e uma estatueta de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer no drama “Histórias Cruzadas”, a biografia da lenda da soul music tinha todos os elementos que a Academia gosta de premiar: uma história de superação contada de maneira envolvente, com ótimos atores (incluindo, além de Octavia Spencer, a indicada Viola Davis, protagonista de “Histórias Cruzadas”) e boa música.

Nem sempre indicações ao Oscar são garantia de qualidade, mas “James Brown” é bem melhor que “Histórias Cruzadas”, dentro das limitações do cinema de entretenimento. Ele está mais para cinebiografias convencionais como a de Ray Charles do que para a ousadia autoral de Todd Haynes para falar do multifacetado bob Dylan em “Não Estou Lá”. E isso não é nenhum demérito.

A história do menino que sofreu com o abandono familiar e foi condenado a mais de cinco anos de detenção por roubar um terno até pode ser usada para apimentar a discussão sobre a redução da maioridade penal no Brasil. O jovem Brown teve oportunidade de, na cadeia, aprimorar seus dotes musicais, enquanto nossos presídios são fábricas de bandidos. Aqui, a chance do ladrão de terno sair da cadeia com instintos homicidas é grande.

O viés sociológico e racial do filme não tem tanta ênfase quanto a parte musical, que chama a atenção a começar pela personificação impressionante que o ator Chadwick Boseman faz do cantor. Mesmo que na maioria das músicas ele esteja apenas dublando Brown, os trejeitos e os passos de dança são idênticos aos do cantor. E a qualidade do repertório dispensa comentários.

Mas o melhor é perceber a sutileza com que ele compõe o perfil psicológico do músico. O jovem humilde e tímido vai aos poucos se transformando num descomunal egocêntrico que se comportava como um semideus. O excesso de autoconfiança era uma faca de dois gumes, que se por vezes lhe era favorável no aspecto artístico, por outro causava sua ruína nas relações pessoais e profissionais. Mesmo revisitando elementos já conhecidos de sua biografia recheada de escândalos, “James Brown” consegue manter um pique tão contagiante quanto seu vasto acervo de obras-primas musicais.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário