DVD/Blu-ray


Clássicos da Nouvelle Vague, em DVD, pela Versátil

De: FRANÇOIS TRUFFAUT, JEAN-LUC GODARD, ALAIN RESNAIS, JEAN-PIERRE MOCKY, JACQUES RIVETTE, JACQUES DEMY
Com: CHARLES AZNAVOUR, JEANNE MOREAU, DELPHINE SEYRIG, ANNA KARINA
29.06.2015
Por Octavio Caruso
Clássicos essenciais da Nouvelle Vague, em lançamento de luxo.

Ano Passado em Marienbad (L'Année Dernière à Marienbad – 1961)

Ontem revi esse que considero um dos melhores filmes de Alain Resnais. O tipo de obra perfeita, intensamente subjetiva, para que pessoas mal intencionadas exercitem sua arrogância, gritando a plenos pulmões sua ilusória superioridade intelectual. Garantia do já clássico argumento: “não é para todo mundo”. Esses entendem o cinema como uma espécie de maçonaria, onde o mistério cria o interesse, algum artifício seletivo que, ao invés de unir pessoas, as divide, um conceito antagônico à própria Arte. Atitude essa que pode nascer tanto do público quanto da crítica especializada, fazendo com que os interessados evitem contato, seja por medo, caso não compreendam, de serem ridicularizados, ou por considerarem que será uma experiência chata, improdutiva. Aqueles que conseguem vencer o preconceito podem ainda se chocar logo de início com análises textuais feitas por, e para, membros dessa maçonaria, complicando ainda mais aquela equação matemática, que um bom professor pode ensinar de forma divertida.

Assim como “Hiroshima Meu Amor”, “Ano Passado em Marienbad” fala sobre memória. O protagonista vivido por Albertazzi, chamado apenas de “X”, aborda uma bela jovem, vivida por Seyrig, denominada como “A”, em uma luxuosa festa em um palácio, afirmando tê-la conhecido no ano anterior e vivido com ela um breve caso de amor. O problema é que ela não se recorda de ter vivido essa experiência. Como de costume nas obras de Resnais, o fascínio não se encontra em sua trama, porém na forma como ela é contada, no estilo empregado em sua narração. Suas cenas aparentemente desorganizadas por uma montagem ousada, que desrespeita qualquer senso de linearidade. As intenções do diretor são simbolizadas de forma perfeita, por volta dos vinte minutos, no momento em que Delphine Seyrig e Giorgio Albertazzi fantasiam teorias sobre o significado de duas estátuas, de um homem e uma mulher. Um afirma que o gesto da mulher se assemelha a de alguém que está tentando interromper o caminhar do homem, enquanto outro acredita que é o homem que intenciona interromper a mulher. Ambos, assim como o público, chegam a um acordo: qualquer uma das interpretações é válida e justificável, incluindo as várias outras formas possíveis de se analisar o gesto daquelas estátuas. O significado é aberto, como manchas de Rorschach, ilimitado, assim como as múltiplas interpretações que o diretor propõe.

Durante o filme percebemos que, em muitos momentos, os coadjuvantes paralisam em cena, como estátuas, e aqueles que conduzem a trama continuam a se mover, por vezes atravessando entre eles, criando um efeito de beleza surrealista. Vozes que são ouvidas em off e não pertencem àqueles que são vistos movendo os lábios, um artifício comum na obra. A confusão inicial joga com a questão da ligação entre áudio e imagem no cinema. Crítica similar, de forma mais popular, logo, mais eficiente, foi feita por Chaplin em filmes como “Tempos Modernos”, onde o vagabundo canta palavras desconexas, e “Um Rei em Nova York”.

Assistam e percebam que, a cada revisão, novos detalhes serão percebidos e melhor compreendidos. Um belo poema visual.

Os Libertinos (Les Dragueurs – 1959)

Quando se escreve sobre Nouvelle Vague, a crítica normalmente se foca nas obras mais ideologicamente pretensiosas. Eu gosto demais da atitude do diretor Jean-Pierre Mocky, pouco lembrado, que incitava em seus colegas o desprezo a toda a gordura extra de um filme, aquela pesada bagagem de clichês e fórmulas, que ele chamava de peso morto, o limitante rótulo de tradição de qualidade. Ele estimulava que se filmasse tudo sem captação de áudio, como os cineastas italianos do neo-realismo, poupando despesas, deixando para inserir o som gravado na pós-produção. O interesse do rapaz estava na essência, não na forma. Essa liberdade é perceptível em seus primeiros trabalhos, especialmente em “Os Libertinos”.

Assistindo hoje, imaginando no contexto de sua época, fico impressionado com a ousadia dele em traçar uma analogia de sua sociedade, utilizando como microcosmo as divertidas paqueras de uma dupla de jovens pelas ruas de Paris. Não há tentativa alguma de intelectualizar a trama, que flui num ritmo bastante agradável, um clima muito diferente das experimentações, por vezes, entediantes, de seus colegas mais famosos. O jovem tímido, vivido de forma adorável por Charles Aznavour, não tem preferências, qualquer garota que sorrir para ele já se torna uma possibilidade. Ele é gentil, solitário, não deseja nada da vida, apenas o necessário para seguir vivendo. O conquistador extrovertido, vivido por Jacques Charrier, que idealiza a mulher dos sonhos, tentando encontrar ela nos rostos das jovens, atravessa o caminho do rapaz introvertido, no meio de uma caçada urbana por belas mulheres. Um não sabe absolutamente nada sobre o outro, o respeito nasce pelo interesse em comum. Os artifícios utilizados nas tentativas desajeitadas de flerte, como o golpe da moeda, trabalhados na trama como habilidades estabelecidas de trambiqueiros profissionais, resultando em cenas que sempre me remetem, como uma espécie de paródia, ao sisudo “Pickpocket”, de Robert Bresson, que foi lançado no mesmo ano.

A dupla acaba sendo conduzida para uma decadente festa da alta sociedade, onde a promiscuidade exagerada, caricatural, evidencia a metáfora social. O que ocorre nessa noite agitada acaba moldando os rapazes, que são testados em suas convicções. Aquele que se orgulhava de não se importar com ninguém, aprende a importância de se posicionar contra o que não concorda. É, no frigir dos ovos, um eficiente conto de maturidade.

Os filmes estão sendo lançados em DVD, versões restauradas com ótimo material extra, pela distribuidora "Versátil", na caixa "Nouvelle Vague", contendo ainda: "Um Só Pecado" (Truffaut), "Banda à Parte" (Godard), "A Baía dos Anjos" (Demy) e "Paris nos Pertence" (Rivette). Tesouro essencial na coleção de todo cinéfilo.

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