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DOIS CASAMENTOS

De: LUIZ ROSEMBERG FILHO
Com: PATRICIA NIEDERMEIER, ANA ABBOUT
23.07.2015
Por Marcia Vitari
O discurso político-afetivo do diretor aparece por meio da necessidade de se romper o hábito.

Se um já é complexo, imagine então o que seria acompanhar o desenrolar da cerimônia de Dois Casamentos. Ou melhor, a espera do início da cerimônia na sacristia enquanto seus noivos não vem.

Após vinte anos sem fazer um longa-metragem, Luiz Rosemberg Filho volta com um projeto de cinema/teatro. Com o apoio e estímulo do produtor Cavi Borges que solicitou uma ideia economicamente viável, o roteiro surge durante uma viagem a Ribeirão Preto quando, sentado num banco de praça, Rosemberg escuta uma mulher conversando com outra, onde esta revela ser apenas através do casamento a única saída de uma vida de privações e a possibilidade de mudança. Sair de uma cidade acanhada e, num bom matrimônio, ganhar a cidade grande.

Na montagem, acompanhamos o diálogo entre duas noivas com personalidades distintas que se debatem entre o mar e o rochedo. Não por acaso - e, por sorte, um acaso - o cenário onde se passa a trama comporta uma grande rocha que brota no meio do palco. Filmado no Teatro Floresta em Rio das Pedras (RJ), este elemento cenográfico natural penetra como um totem irrompendo o clima noir, soturno; onde tudo acontece. Um corte epistemológico que, com sua dureza, contrasta com a maleabilidade das situações e circunstâncias. A cada momento elas se adaptam e se convertem uma na imagem da outra: um autêntico exercício de conversação/conversão.

O discurso político-afetivo do diretor aparece por meio da necessidade de se romper o hábito, "diálogos-panfletos" e palavras escritas tatuadas uma no corpo da outra: impressões-cicatrizes. Marcas que funcionam como ritos de passagem. Logo na abertura do filme, lemos à frase da filósofa búlgaro-francesa Julia Kristeva, aquela que preconiza estar toda subjetividade ancorada no corpo. Corpo e linguagem como um bloco único interagindo e, nesse movimento, o surgimento do ato transformador. Mesmo com todo palavreado que brota da tela/palco, o olhar tendencioso dirigido ao sexo feminino nota-se na seguinte frase: "o silêncio das mulheres". Algo que apenas um ouvido generoso como o do diretor poderia atribuir a este gênero reconhecido - inclusive cientificamente falando - como aquele onde as palavras são uma ferramenta bem mais desenvolvida se comparado ao sexo masculino.

O aspecto teatral-alienante da festa é reforçado pelas imagens em negativo que encerram a trama. O vestido branco, nesta virada, se transforma em negro luto. Neste tributo à melancolia, o filme homônimo do diretor Lars Von Trier - Melancholia (2011) -, nos veem à mente quando logo na abertura havia uma limousine tentando avançar numa estrada exígua e, como consequência, fica ali estagnada, encalhada. A metáfora das Bodas como algo de inadequação ao livre curso da vida. Um embate entre natureza e cultura. Como se apenas deixando o livre curso dos acontecimentos, nada aconteceria. E percebemos - assim como no filme de Rosemberg -, o sentimento de melancolia que exala todo o tempo da encenação. O casamento como o túmulo do sexo, mas necessário para a garantia da prole/família: um paradoxo contido em si mesmo.

Depois de mais de uma década gestando um trabalho de fôlego, Rosemberg mostra seu valor. Além de um longa-metragem, uma peça teatral está sendo encenada simultaneamente, mostrando, assim, que um projeto múltiplo e versátil ratifica suas impressões do que seja uma cerimônia-performance. A exemplo do dramaturgo americano David Mamet, que encara projetos casados de cinema/teatro, temos aí um brasileiro que também começa sua empreitada no mundo das artes cinematográficas e cênicas com o mesmo vigor que sempre imprimiu em suas realizações.

Marcia Vitari é mestre em comunicação e cultura, jornalista e tem contos incluídos nas antologias do Clube da Leitura, volumes I e II

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Outros comentários
    4117
  • Tito Rosemberg
    23.07.2015 às 13:03

    Excelente crítica. Seu olhar penetra a trama, desvenda o diretor e suas intenções. Belas palavras... obrigado!
  • 4118
  • Sergio Sbragia
    27.07.2015 às 15:30

    Na tradição da boa crítica, informa e instiga. Texto redondo.
  • 4119
  • Americo Vermelho
    28.07.2015 às 09:30

    ...."O casamento como o túmulo do sexo, mas necessário para a garantia da prole/família: um paradoxo contido em si mesmo".... Aí, nesta curta frase, está contido todo o falso problema/dilema do casamento. Não é preciso estar casado para ter familia e muito menos filhos. Gostei da analise do filme. Profunda sem ser metida a besta! Abraços e parabens, Marcia.
  • 4120
  • Roni Filgueiras
    30.07.2015 às 15:19

    Márcia, Sua avaliação é tão rica que já imagino essas mulheres em conversas, entre tensas e sonhadoras. Parecia algo de um século passado carimbar a vida com esse passaporte do casamento. Ainda tão cobiçado por algumas mulheres. Agora fica a vontade imensa de conferir a obra de Rosemberg.
  • 4121
  • aida marques
    09.08.2015 às 13:06

    Sensível e excelente crítica.
  • 4123
  • Sandra Felzen
    11.08.2015 às 07:38

    Excelente texto. Uma análise aprofundada do contexto da obra, repleta de referências importantes que iluminam nossa compreensão.
  • 4126
  • Regina Miranda
    13.08.2015 às 14:17

    É importante quando um texto crítico se torna um percurso de reflexão q propōe ao leitor novas associações e não apenas um olhar sobre uma obra. Bravos Marcia!
  • 4127
  • Johandson rezende
    19.08.2015 às 07:24

    Texto profundo. Muito bom
  • 4134
  • Marcos Florião
    04.09.2015 às 06:26

    Excelentes escritos. Gosto bastante desse tipo de proposta, teatro-dentro-do-filme(como em diversos de meu muso-vovô Jacques Rivette), filme-dentro-do-filme (como em "A Mulher do Tenente Francês"), onde acontece um rebatimento constante entre a linguagem explícita & implícita. Imagino que você tenha gostado da obra-prima "Sils Maria"/Olivier Assayas, onde Ju Binoche e Kristen Stewart vivem duplos (ou mais, rs), afora inevitáveis reflexões & questionamentos posturais em ambas enquanto mulheres e atrizes. Se a atriz de "Persona"(Liv Ullmann em Bergman) estava em corner existencial a partir de um desencanto pleno, a Maria Enders de Assayas assim se encontra ao se deparar com a hipótese imediata de assumir...quem ela é.
  • 4140
  • Cavi Borges
    08.09.2015 às 18:25

    Bela critica!!!! Uma das melhores que li até agora! Parabens e muito obrigado pelo imersão no filme!!!
  • 4161
  • ivan
    25.09.2015 às 01:41

    Bela crítica e belo filme!