Críticas


MOSTRA SP 2004: MORTE DENSA

De: JURANDIR MULLER e KIKO GOIFMAN
23.10.2004
Por Ricardo Cota
QUEM FALA CONSENTE

O título não é nada atrativo. O tema, muito menos. Mas a duração curta torna tudo relativo e compensa qualquer preconceito. Morte Densa é um documentário sobre assassinos de um crime só. Ou quase isso, visto que um dos depoentes em questão, um ano após a entrevista, cometeu um novo crime. A idéia era reunir relatos que, apesar de suas particularidades, tivessem como motivação um apelo irracional, despertado num momento de fúria passional, quase sempre escoltado, segundo os entrevistados, numa hipótese de legítima defesa ou mesmo de pura provocação da alma despachada para o além.



As entrevistas versam sobre casos da adultério, fratricídio, parricídio e crimes decorrentes de crises conjugais. As histórias são apresentadas de forma ordenada, sem cruzamentos. Os diretores, numa linha que lembra a adotada no ótimo Eu Fui a Secretária de Hitler, deixam que o discurso, por si só, cative a atenção do espectador, o que não é difícil diante da força dos relatos. Morte Densa, como o filme de André Heller e Othmar Schmiderer, é um registro a palo seco, que coloca o verbo em close. Mais do que chocar, o ecoar das histórias inquieta o espectador, tensionado pelo questionamento subtextual, e obviamente dostoievskiano, sobre os limites estabelecidos pela razão.



Julgar os protagonistas não é o objetivo, até porque os próprios seguem uma linha de raciocínio muito semelhante em que à descrição das atrocidades cometidas pela vítima (que em si justificariam o crime) sucede-se um remoer de culpa que inevitavelmente descamba para a purgação religiosa, esta praga pavorosa que nos devolve dia após dia ao berço de espeto da idade média.



O pior a se observar no conjunto de histórias alinhavado por Morte Densa é o que cerca a totalidade dos enredos. Para cada um dos dramas narrados, o cenário é o mesmo. No pano de fundo, um país em que a vida doméstica transformou-se numa espécie de caldeirão fervente cujos ingredientes são uma nebulosa relação de amor e ódio, incesto, pedofilia, estupro, drogas, carência e desespero. Bastaria a fala direta de cada personagem para que Morte Densa deixasse registrada sua força. Os desnecessários experimentalismos que pontuam a narrativa – justificados pelo fato dos realizadores Jurandir Muller e Kiko Goifman serem egressos da videoarte - dão ao filme um toque muito pretensioso, com imagens de uma banalidade atroz embaladas por um deslocado Nick Cave. Se não chegam a tirar o interesse do filme, evidenciam o que ele tem de melhor e pior.



#MORTE DENSA

Brasil, 2004

Direção: JURANDIR MULLER e KIKO GOIFMAN

Duração: 55 min.

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