Críticas


CONFIDÊNCIAS MUITO ÍNTIMAS

De: PATRICE LECONTE
Com: FABRICE LUCHINI, SANDRINE BONNAIRE, MICHEL DUCHAUSSOY
25.01.2005
Por Marcelo Moutinho
DRAMA CORRETO, MAS SEM ALMA

A versatilidade talvez seja a principal marca do cineasta francês Patrice Leconte. De comédia agridoces, como O Marido da Cabelereira e Um Homem Muito Esquisito, a dramas densos (A Víuva de Saint-Pierre), o diretor já trafegou por diferentes gêneros, com maior ou menor êxito, mas sempre demonstrando domínio técnico da arte de filmar. Em Confidências Muito Íntimas, a intimidade com a “gramática” básica do cinema está mais uma vez patente. O problema é que parece faltar algo.



Leconte narra a história de Anna (Sandrine Bonnaire), que no auge da crise matrimonial procura um psicanalista. Por distração, logo na primeira consulta ela erra de consultório e vai parar na sala do tributarista William Faber (Fabrice Luchini). Estranhamente fascinado por Anna, Faber não desfaz o engano e passa a ministrar sessões. Aos poucos, a relação avança para um sentimento mútuo de dependência, cuja essência localiza-se no problema que mitiga a vida de ambos: a solidão. As circunstâncias propostas na trama obedecem a mote recorrente do cinema: o inusitado encontro que bagunça o cotidiano do casal, funcionando como ponto-de-partida para novos ventos.



O trabalho de Fabrice Luchini sobressai na composição do metódico homem de meia idade que há mais de 30 anos cumpre as mesmas tarefas, legadas pelo pai. O perfil do indivíduo metódico, quase apático, evidencia-se entre outros fatores através de manias prosaicas, como a sistemática arrumação dos sapatos, e as poucas palavras que pronuncia – ao menos antes de conhecer Anna – revelam sua introversão. Faber limita-se a fitar o mundo; parece dele não tomar parte. E Leconte sublinha tal condição em cena que cita explicitamente o clássico Janela Indiscreta: o tributarista observa pela janela os vizinhos do prédio defronte a sua sala – o velho que lê, o casal que discute, dois namorados –, mas seu voyeurismo e sua imobilidade, evidentemente, não se devem a nenhuma perna quebrada. O caso dele é mais sério, e menos explícito.



Se a composição de Luchini beira a perfeição, Sandrine Bonnaire está um tom acima, tanto ao retratar a moça retraída do período inicial, quanto no papel da mulher contundente e impositiva da segunda metade do filme. A movimentação dos dois atores obedece a marcações claramente teatrais, mas falta punch à direção. Leconte acerta, contudo, ao caracterizar o estado interior dos personagens por intermédio de locações fechadas – em poucos momentos a câmera sai do escritório -, iluminação com toques noir e cenografia centrada em cores sóbrias. À medida que se conhecem, a progressiva transformação vai sendo sublinhada, com algumas tomadas externas e mais luz. O figurino também muda. A encasacada Anna deixa a echarpe, depois as luvas, e enfim as mangas compridas, até surgir em vestidos estampados, transparências e blusas com decote.



Em resumo, Leconte dá seu recado ao alocar adequadamente os elementos fílmicos e aplicar mais uma vez com competência a gramática visual que começou a ser desenhada bem lá atrás por Griffith. Tudo isso faz de Confiências Muito Íntimas um filme “correto”. Adjetivos mais generosos soariam exagerados, porque ao fim o espectador sente que falta algo. Alma, talvez.



#CONFIDÊNCIAS MUITO ÍNTIMAS (Confidences Trop Intimes)

França, 2004

Direção: PATRICE LECONTE

Roteiro: JERÔME TONERRE

Elenco: FABRICE LUCHINI, SANDRINE BONNAIRE, MICHEL DUCHAUSSOY

Duração: 104 min

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