Críticas


MOSTRA SP 2004: TORMENTO

De: JONATHAN CAOUETTE
23.10.2004
Por Daniel Schenker
AGONIANTES IMAGENS DE UM MUNDO SINISTRO

“Eu amo tanto a minha mãe – apesar dessa loucura toda. Não tenho como fugir. Ela vive dentro de mim. Está no meu cabelo, nos meus olhos, dentro da minha pele”, assume Jonathan Caouette, que registra em Tormento a sucessão de tragédias na trajetória da mãe, Renée, e a repercussão gerada em sua vida. Submetida a incontáveis seqüências de eletrochoque, Renée foi sendo cada vez mais distanciada de sua personalidade original e confinada num mundo sinistro de desarticulação mental, passaporte para a solidão, a agonia e a loucura localizadas no extremo oposto do elo com a normalidade (não no sentido do conceito moralizante instituído e sim no de simples preservação da saúde psíquica). Jonathan abarca desde o nascimento da mãe, no início dos anos 1950, até o momento em que traz Renée para morar ao seu lado depois que ela ingere uma dose excessiva de lítio, em 2002.



Esta disposição ao devassamento pessoal e familiar tem movido alguns diretores – entre eles, os próprios envolvidos com os acontecimentos, como é o caso de Jonathan. Sem investir num levantamento abrangente, pode-se citar o recente Na Captura dos Friedmans , resgate (com algum distanciamento temporal) da polêmica acusação de pedofilia direcionada contra um pai e seu filho mais novo, integrantes de uma família aparentemente estável, e Crumb , que trouxe à tona o mais que conturbado histórico do cartunista Donald Crumb. Mesmo que a distância entre a verdade dos fatos e a apreensão subjetiva da verdade seja difícil de ser decodificada, fica evidente, em todos os casos, o desmoronamento de uma estrutura familiar fincada sobre bases hipócritas e a perdição de pessoas eventualmente luminosas na juventude.



No que diz respeito à realização cinematográfica, uma outra questão se impõe: a necessidade de purgar vivências dolorosas através de uma exposição frontal sobrevive diante da presença de uma câmera? Ainda que seja muito improvável apostar numa espontaneidade intacta frente a esta intervenção técnica, artificial, o flagrante da intimidade muitas vezes escapa ao código limitador da representação. Talvez porque, pelo menos no caso de Tormento, o impulso em descobrir “algumas coisas sobre mim”, como sintetiza Jonathan Caouette, consiga se impor e os artifícios utilizados sejam, em alguma medida, assumidos e trabalhados como meios para potencializar o real. É impressionante, por exemplo, conferir a veracidade da interpretação de mulheres descontroladas feita por Jonathan, com apenas 11 anos. Em termos formais, o filme parece quase que 100% fake nas tomadas de uma câmera que, sem estabilidade nenhuma, fornece um caleidoscópio de imagens domesticadas por um texto bastante objetivo. Mas até que ponto esta câmera não está expressando, para além da devoção ao império do visual próprio de quem nasceu da década de 70 em diante e dos cacoetes decorrentes do vínculo do diretor com um certo clichê de cinema experimental, um mundo muito mais repleto de possibilidades do que o apregoado na opressora verossimilhança do cotidiano?





# TORMENTO (Tarnation)

EUA, 2004

Direção: JONATHAN CAOUETTE

Produtor executivo: GUS VAN SAINT

Duração: 88 min



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